Brevíssimas notas sobre as tempestades que assolaram Portugal neste início de 2026 | António Lopes
Brevíssimas notas sobre as tempestades que assolaram Portugal neste início de 2026 | António Lopes (IGOT-UL)
A propósito do grande terramoto de Lisboa de 1755, terá Voltaire lembrado a fragilidade da vida humana e a proximidade constante da morte perante “tais crueldades do destino”. Hoje, não posso deixar de relembrar as tempestades que atingiram Portugal no início de 2026 e de pensar no papel da geografia e na sua capacidade de intervir nos territórios afetados.
As alterações climáticas são uma tendência de longo prazo e observa-se um aumento de fenómenos extremos. Embora as cheias sejam naturais e, no passado, fertilizassem os campos, tornam-se destrutivas quando transformamos o uso do solo e construímos em leitos de cheia. Ventos excecionalmente fortes podem provocar danos generalizados, tornando indispensável preparar as populações e garantir infraestruturas robustas.
Planear e intervir é assim essencial e o ordenamento do território não pode assentar apenas num quadro jurídico imposto: tem de envolver comunidades e criar uma cultura de planeamento partilhada, com mais literacia científica. A nossa segurança exige “sair da frente” dos elementos, respeitando o espaço natural dos cursos de água.
A geografia, sem precisar de explicações divinas, pode propor soluções — de base natural ou de outra natureza — que, assentes em planeamento e rigor científico, podem ajudar a reduzir os riscos futuros; e cabe-nos, a nós geógrafos, transformar esse conhecimento em ações concretas: produzir cartografia de risco (incluindo cenários futuros); identificar áreas de exposição e apoiar decisões sobre onde não construir ou relocalizar; trabalhar com comunidades e proteção civil; comunicar a ciência com clareza e evitar o ruído mediático. Assim tenhamos força e vontade para mudar o que está ao nosso alcance.


