#117 Mafalda Moura
Nome: Mafalda Bastos de Moura
Naturalidade: Porto
Formação Académica: Licenciatura em Geografia e Mestrado em Riscos, Cidades e Ordenamento do Território da Universidade do Porto; Formação Contínua de Saúde Integrada pela Universidade de Munique, Transformação Urbana e Segurança Pública nas Universidades do Porto, de Pisa, da Holanda e da Noruega Ocidental, e Finanças da Sustentabilidade pela Universidade Católica Portuguesa.
1 - Comentário a um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.
Um livro que me marcou foi As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino. É uma obra que, embora ficcional, reflete sobre o modo como vivemos e nos relacionamos com o território. Calvino descreve cidades imaginárias, quase utópicas, que funcionam como metáforas de diferentes formas de viver, de planear e de sentir o território. E essa leitura fez-me pensar nas nossas próprias cidades e aldeias, nas que crescem demasiado depressa ou nas que estão quase esquecidas no tempo. Faz-nos refletir: como descrevemos uma aldeia quase abandonada? O que resta de um lugar quando a vida já quase lá não habita? Que memórias ficam inscritas nas ruas, nas paredes, nos silêncios? Recomendo este livro porque nos lembra que compreender o território não é apenas analisar mapas ou dados, é também perceber as emoções, as memórias e as histórias que os lugares guardam e carregam, mesmo quando o tempo parece tê-los esquecido.
2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?
Ser geógrafa é ver o mundo com outros olhos, não só o que está no mapa, mas o que ele esconde ou conta, desigualdades, recursos, silêncios, histórias enterradas no território. É entender que clima, água, solo e políticas não agem no abstrato, mas num corpo vivo de lugares e pessoas, que precisam de estar em equilíbrio.
A Geografia ensinou-me a ler o território como um sistema interligado: ambiente, sociedade e política e a transformar essa leitura em ação concreta propondo soluções justas, dar voz a quem sofre os impactos na pele e usar dados para tornar visível o invisível.
Hoje, ser geógrafa é ser ponte: entre o técnico e o humano, entre o global e o local. E é com rigor, empatia e o território no centro que guio do que faço da investigação, aos projetos, da adaptação ao planeamento urbano.
3 - Se tivesse de definir Geografia em 3 palavras, quais escolhia?
Território, União e Ação
Território, União e Ação
4 - Quais são os projetos para o futuro imediato? E de que forma valorizam a Geografia?
1. Os 230: Irei estar a contribuir para a promoção de uma política pública de elevado impacto nacional, na área de infraestruturas, mobilidade e habitação. A Geografia aqui é notável, de forma a articular decisões políticas com as realidades territoriais concretas, garantindo que as políticas públicas respondam às necessidades reais.
2. COP30 (Brasil, 2025): Estarei com acreditação online, a acompanhar os compromissos ambientais assumidos pelas partes. Mais do que observar, o meu foco é perceber o que se segue depois destas negociações, como os acordos globais se traduzem em ação local, quem os implementa e onde surgem lacunas. Refletindo assim à lupa nas injustiças e oportunidades territoriais.
3. CCDR-Norte: Vou estudar os desafios e compromissos a nível europeu, nacional e regional, para avançar com recomendações contextualizadas à ação climática regional. Este processo exige uma leitura profunda do território e conhecimento sólido de estratégias de ação climática, onde a Geografia torna-se capaz de ligar políticas, ecossistemas, comunidades e dados num plano coerente e justo.
Além destes, em todos os meus outros projetos mantenho o mesmo compromisso: promover um território mais justo, inclusivo e integrado.
5 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?
Sim, sinto que a minha formação em Geografia é bastante reconhecida nas colaborações que tenho, tanto a nível nacional como europeu. Na Thirst Project Portugal, fui reconhecida pela análise de dados e pela forma como abordei a crise hídrica como um problema territorial e social, indo além da escassez para explorar desigualdades no acesso e na gestão da água. No Último Recurso, analisei as recomendações da COP29 sobre mitigação e adaptação, estudei os impactos da Lei dos Solos e examinei o caso do Hotel Estela, avaliando riscos ambientais e conflitos de uso do solo com lente geográfica.
Na Esri Young Professionals, uso geotecnologias para expor injustiças climáticas e enfrentar os desafios das alterações climáticas à escala local, com participação ativa da população na construção de soluções. Pelo meu trabalho, fui reconhecida como Campeã em Ciências da Terra. Na Youth Climate Leaders Portugal, durante dois anos, elaborei recomendações para os desafios territoriais de Portugal, em 2024 da cidade do Porto. Em 2025, atuei como especialista em adaptação climática, com elevada confiança na minha capacidade de contribuir para a carta nacional e liderar presencialmente este impacto.
Como Embaixadora do Pacto Europeu para o Clima, fui reconhecida por dar voz às gerações mais novas, promover educação ambiental e contribuir para políticas públicas, com momentos como oradora e colaboração no Manifesto Seixal+Verde. Pelo mesmo trabalho, recebi um voto de confiança que permitiu que minhas recomendações fossem partilhadas a nível nacional, tendo ainda sido reconhecida pela FLUP pela minha liderança em ação climática.
No Smart Waste Young Professional, contribuo com consciência sobre os recursos e sua gestão sustentável, alinhada a uma economia verde e circular.
Na YOUNGO (UNFCCC), o meu papel é levar recomendações nacionais ao nível internacional, com foco no Global Goal on Adaptation. Analiso o progresso e compromisso dos Planos Nacionais de Adaptação e Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), garantindo que a voz da juventude seja integrada nas negociações globais.
Acho que a Geografia é percebida como uma base sólida, que me permite conectar a ciência, as políticas públicas e a ação no território, e isso é algo que os projetos, parceiros e equipas com quem colaborei e colaboro reconhecem e valorizam.
6 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspetivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?
A um jovem que entra agora na universidade, diria: prepare-se para dar o melhor. A Geografia está cada vez mais valorizada: nas políticas climáticas, no planeamento urbano, na justiça ambiental e na análise de dados espaciais, mas ainda enfrenta preconceitos e muitas vezes subestimada. E, acima de tudo, raramente vão adivinhar o potencial só pelo diploma de licenciatura. As oportunidades não surgem sozinhas, temos de as criar. A nova geração vai enfrentar uma entrada no mercado de trabalho mais competitiva: há muitos licenciados, poucas vagas estruturadas e uma pressão constante para já ter experiência de anos de carreira. Por isso, é essencial distinguir a participação em projetos reais, colaborar com redes, publicar, moderar, propor soluções, mostrar impacto. Não basta saber, é preciso fazer Geografia visível, útil e transformadora.
A um geógrafo já em exercício, reforçaria: a nossa responsabilidade é imensa. Vivemos uma viragem histórica: climática, social, política e o território está no centro. Por isso, precisamos de geógrafos mais dinâmicos, mais resilientes, mais inovadores e mais críticos. Esperam-nos comunidades a ouvir, dados a interpretar, injustiças a expor, políticas a repensar.
A Geografia dá-nos as ferramentas para pensar, organizar e moldar um território mais justo, mais ecológico e mais consciente dos seus impactos, mas só se a usarmos com propósito, rigor e coragem.
7 - Queríamos pedir-lhe que escolha um acontecimento recente, ou um tema atual, podendo ambos ser de âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha, e comente-o, tendo em conta em particular a sua perspetiva e análise como geógrafo.
A ação climática está num impasse: por um lado, multiplicam-se as promessas internacionais e os planos técnicos; por outro, a realidade dos territórios continua a agravar-se, com comunidades cada vez mais expostas, perda de meios de subsistência, dos seus recursos e do património. O problema já não está na falta de conhecimento científico, mas na distância entre as decisões políticas e as vivências locais.
A ação climática não pode ser desenhada apenas em gabinetes técnicos ou em fóruns distantes que favorecem quem tem mais recursos económicos. Precisa de nascer na sociedade, pelas ruas, nas escolas, nas conversas entre cidadãos que sentem, dia após dia, ano após ano, os impactos concretos da crise climática. É aí que se percebe quem é mais vulnerável, onde falham os serviços, onde faltam planos, quando as promessas se esvaziam e as ferramentas de resiliência demoram a chegar. E é aí, sobretudo, que se descobre que soluções fazem sentido no contexto local. As áreas rurais, muitas vezes esquecidas pelo Governo central, são um exemplo urgente. Isoladas geograficamente e problemas de esvaziamento pela migração para as cidades, enfrentam riscos crescentes, mas também guardam um potencial enorme: comunidades com forte ligação à terra, ecossistemas resilientes e saberes tradicionais que são fundamentais para uma transição justa, segurança climática e sumidouros de carbono. Apoiar estas regiões não é só uma questão de equidade, é uma estratégia essencial para um futuro integrado, justo e sustentável.
Para isso também exige mais mecanismos de participação e capacitação que vão além da consulta simbólica: orçamentos participativos climáticos, comissões mistas com cidadãos (pedidas pela Lei de bases do Clima), acesso aberto a dados espaciais, formação em literacia climática e, sobretudo, vontade política para ouvir e entregar.
Mas ouvir não basta se a comunidade não tem meios de agir. É urgente investir mais em capacitação local: desenvolver empregos verdes acessíveis, oferecer formações práticas em economia circular, gestão florestal e agrícola ecológica, adaptação e energia renovável e descentralizada, e garantir que essas oportunidades cheguem também às regiões mais isoladas.
Além disso, os eventos e fóruns sobre clima precisam ser descentralizados, não podem concentrar-se sempre nas grandes cidades. Só assim conseguiremos recolher recomendações autênticas, ouvir os desafios reais do interior e construir políticas que reflitam a diversidade territorial de Portugal.
É através da Geografia que aprendemos a analisar as dinâmicas e a distribuição de recursos no território, a fundamentar diagnosticamente os problemas e as vulnerabilidades, e a mapear não só os riscos climáticos, mas também a exposição real das comunidades. Essa leitura só faz sentido se for completa, integrando dados técnicos, saberes locais, indicadores de exposição e justiça social. E só assim pode-se orientar uma educação e cidadania ambiental crítica, capaz de transformar o território. Por fim, uma resposta climática só será eficaz se tiver uma base geográfica situada, contextualizada e justa.
A ação climática deve ser entendida, antes de mais, como resposta preventiva e estruturante para reduzir danos e impactos, e não apenas como uma reação posterior aos desastres. Eventos recentes, como as tempestades e precipitações extremas ou os incêndios florestais recorrentes, demonstram que continuamos a atuar sobretudo após a ocorrência, mobilizando milhões de euros em respostas de emergência e reconstrução, esquecendo a urgência a longo prazo.
8 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?
Recomendaria começar pelas ilhas, são o primeiro passo para olhar Portugal de outro ângulo, não como um ponto marginal na Europa, mas como um território de fronteira, ligação e resiliência, que nos abre ao mundo e nos lembra que somos muito mais do que um pequeno pedaço de terra continental. Dentro das nossas fronteiras, proporia uma viagem lenta de norte a sul, onde o território ainda se sente com o corpo, com os pés no chão e os olhos na paisagem. Do Gerês aos vinhedos do Douro, terras que foram da minha família, subindo à Serra da Estrela até ao Fundão, e regressando ao litoral na Figueira da Foz, para conviver com quem vive do mar e da terra, entre redes de pesca e palacetes abandonados. Mas mais do que observar, viveria o país pelos seus rituais coletivos:
Desde as Festas de Santo António ao São João no Porto, da Senhora da Graça, à Santa Eufémia em Trás-os-Montes, cujas festas carregam memórias de gerações. Esses momentos revelam Portugal no seu estado mais autêntico: comunitário, afetivo e profundamente humano. Uma forma de sentir o território, celebrar a sua diversidade e partilhar a sua memória inscrita no chão, nas vozes e nos gestos do quotidiano.


