#115 Diogo Barbosa
Nome: Diogo Barbosa
Naturalidade: Viana do Castelo
Idade: 27
Formação académica:
Licenciatura em Geografia e Planeamento;
Mestrado em Sistemas de Informação Geográfica e Ordenamento do Território;
Pós-Graduação em Direito do Urbanismo e da Habitação;
Ocupação Profissional: Técnico Superior na Comunidade Intermunicipal do Tâmega e Sousa.
1- Quem é a/o Geógrafo/a? Em que áreas trabalha e de que forma a Geografia faz parte da sua vida?
Sou geógrafo por formação e desenvolvo a minha atividade profissional na área da mobilidade e dos transportes. Anteriormente, exerci funções no âmbito do planeamento e ordenamento do território.
A Geografia é a essência do quotidiano de um cidadão. É ela que molda as ações diárias. Nas minhas funções, ela expressa-se no estudo do território, na análise dos fluxos de movimento, na compreensão da estrutura organizacional do espaço, e, principalmente, na avaliação de como é que as possíveis decisões sobre a mobilidade e o urbanismo impactam a esfera social.
2- Quais são os projetos para o futuro imediato? E de que forma valorizam a Geografia?
Algo que gostaria de explorar, ainda mais, num futuro próximo, é a ciência de dados, nomeadamente na visualização e análise de dados espaciais na web. A integração e o estudo entre múltiplos campos de dados espaciais possibilitam-nos atingir novos horizontes, compreender novas dinâmicas, assim como criar soluções e práticas inovadoras. Felizmente, a motivação não me falta para abraçar novos projetos. Contudo, as articulações com as várias diligências diárias tornam este objetivo um pouco mais árduo.
Não obstante, considero que estas intenções contribuem para desenvolver um novo campo geográfico que está, lentamente, a ser explorado – e denoto que há, cada vez mais, interessados -, mas com um potencial enorme e encorajador para vários domínios ambientais, sociais, económicos, culturais, etc.
3- Se tivesse de definir Geografia em 3 palavras, quais escolhia?
Espaço, Interação, Desenvolvimento.
4 - Comentário a um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.
Tentar indicar apenas um livro que me marcou é algo complexo, dada a variedade de obras que me influenciaram e moldaram a minha perspetiva pessoal, académica e profissional. Todavia, destaco dois livros que considero complementares.
Um deles é o Social Justice and City, de David Harvey. De leitura obrigatória, no meu primeiro ano académico, rapidamente se transformou numa premissa para a análise da organização espacial do território e, sobretudo, pela forma como esta se relaciona com a justiça social.
O segundo livro que considero essencial é Le Diable et le Bon Dieu, de Jean-Paul Sartre. Ainda que esta obra pertença a um campo diferente do da geografia, esta publicação influenciou a forma como encaro a responsabilidade individual, em contextos sociais marcados pela injustiça.
Num mundo marcado pela desigualdade e conflito, julgo que estes dois livros evidenciam que a análise crítica da injustiça social exige, ao mesmo tempo, a compreensão das estruturas espaciais que a produzem e a assunção da responsabilidade ética no processo individual e coletivo.
5 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?
Ser geógrafo implica ter a capacidade de assimilar o território em todas as suas dimensões e decifrar as forças que o emoldam. Desta forma, a Geografia ajuda-me a compreender o impacto real das intervenções que nós produzimos, seja no espaço ou nas pessoas. No meu caso, traduz-se numa leitura crítica das várias realidades territoriais e na aplicação de soluções que promovam um maior bem-estar e qualidade de vida para a comunidade, seguindo o princípio da responsabilidade social.
6 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?
Sem embargo da comunidade geográfica ser pouco visível no espaço mediático, considero que a formação em Geografia é reconhecida pela sua capacidade em oferecer um juízo que envolve vários elementos das diferentes disciplinas sociais e naturais. E é precisamente esta imagem agregadora que nos distingue, a meu ver, no exercício da nossa atividade com outros colegas de diferentes áreas.
7 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspetivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?
Sou apologista de que, seja qual for a ocupação profissional, o mais importante é gostarmos daquilo que fazemos. E, como em tudo, as oportunidades criam-se e vão surgindo à medida que vamos questionando, arriscando e, sobretudo, quando pretendemos ir além do suficiente.
É este pressuposto que indicaria a um jovem que está prestes a iniciar a sua formação universitária em Geografia: ser curioso, crítico e exigente. A Geografia oferece-nos oportunidades em muitos campos e cabe, a cada um de nós, identificá-las e explorar-lhas. No entanto, estas oportunidades também trazem a necessidade de tomar decisões informadas e contribuir, de forma consciente, para o desenvolvimento das comunidades.
8 - Comente um acontecimento recente, ou um tema atual (nacional ou internacional), tendo em conta em particular a sua perspetiva e análise como geógrafo.
Interesso-me bastante pelas questões geopolíticas e fascina-me o modo como a geografia é base dos conflitos que, infelizmente, ainda persistem.
E, associado a isto, recomendo, ferozmente, o livro Prisioneiros da geografia, de Tim Marshall. Nele podemos refletir como é que a geografia molda as vulnerabilidades, as habilidades, os desafios e as oportunidades que países enfrentam. Dou alguns exemplos: a guerra na Ucrânia, onde o controlo pelo Mar Negro, as planícies com elevada aptidão agrícola e os corredores de circulação revelam a importância tanto da geografia física como da geografia económica no conflito. Ou a questão Israel-Palestina, cujo controlo e gestão dos recursos hídricos terá uma preponderância no futuro desta região. E, claro, a crise climática e as consequentes migrações, dos quais, eventos como a desertificação, a subida do nível médio do mar e os fenómenos meteorológicos extremos estão a reformular dinâmicas de mobilidade e, principalmente, a agravar as desigualdades territoriais.
9 - Que lugar recomenda para saída de campo em Portugal? Porquê?
Como vianense, a minha recomendação para a saída de campo não poderia deixar de ser em percorrer a Estrada Nacional 13, entre Viana do Castelo e Valença. Ao percorrê-la, observamos múltiplas relações territoriais e sociais que elucidam como é que o espaço se organizou e transformou, ao longo do tempo.
Entre elas, destaco: o contraste entre o mar e a serra; a distribuição dos aglomerados habitacionais, cujas localizações foram condicionadas pelas características naturais do relevo e afastadas, estrategicamente, do mar; a atividade agrícola e a sua influência na economia local; as fronteiras, que expõem a forma como os elementos naturais moldam, ou não, fluxos de pessoas, mercadorias, cultura e relações sociais.
Desta forma, a Nacional 13, assim como outras estradas portuguesas, permite-nos refletir que uma estrada não é apenas um corredor que nos permite interligar entre o ponto X e o ponto Y, mas um espaço que articula paisagem, economia, sociedade e cultura, elementos que vão ao encontro das ideias de Álvaro Domingues, no seu livro A Rua da Estrada: o território como manto de relações, movimentos e fluxos, e não apenas como um espaço limitado ou fixo.


