#123 Rafael Fernandes
Nome: Rafael Fernandes
Naturalidade: Coimbra
Idade: 42
Formação académica: Licenciatura Geografia / Pós-Graduação em Riscos Naturais
Ocupação Profissional: Consultor SIG
1- Quem é a/o Geógrafo/a? Em que áreas trabalha e de que forma a Geografia faz parte da sua vida?
Formado em Coimbra, depois de dois pequenos estágios na Proteção Civil do Município de Coimbra, trabalhei durante quase nove anos na Câmara Municipal de Mortágua, onde, juntamente com outros dois colegas geógrafos, começámos a desenvolver um SIG municipal. Em 2017 mudei-me para Estocolmo e, desde 2020, trabalho como consultor na área de SIG e bases de dados na WSP, uma consultora multinacional nas áreas da engenharia e do ambiente. Atualmente, trabalho em vários projetos ambientais (análise de solos e águas), mas também em grandes projetos de infraestruturas e estudos de impacto ambiental (transportes e rede elétrica). Comecei o curso de Geografia em 2001, na Universidade de Coimbra. Trabalho com Sistemas de Informação Geográfica desde que terminei o curso, em 2006. Diria que a Geografia faz parte da minha vida diária desde essa altura.
2- Quais são os projetos para o futuro imediato? E de que forma valorizam a Geografia?
Num futuro imediato, continuarei na Suécia e na WSP, onde tenho bastante liberdade para escolher os projetos em que trabalho e explorar diferentes áreas e ferramentas. Trabalho em projetos da área ambiental, onde existe um grande foco na sustentabilidade e onde posso ter algum impacto positivo no território.
3- Se tivesse de definir Geografia em 3 palavras, quais escolhia?
Território – Humanidade - Fronteira
4 - Comentário a um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.
Um livro que me marcou recentemente foi “A Espera”. Uma novela gráfica de Keum Suk Gendry-Kim, baseada na história da sua mãe, que, como tantos outros coreanos, viu a sua família separada para sempre com a divisão da península da Coreia. Mais uma vez, um exemplo da forma como a geografia pode definir vidas e de quão diferente é a experiência do indivíduo consoante o lado da fronteira a que ficou remetido.
5 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?
Não tenho uma visão particularmente romântica do que é ser geógrafo. É evidente que tudo o que fiz nos últimos 25 anos assenta nessa escolha, tomada no final do 12.º ano, de estudar Geografia. Ainda assim, para lá desse “pormenor”, diria que, no dia a dia, procuro olhar para o mundo de uma forma ligeiramente diferente — com um olhar mais global, atento à relação entre os acontecimentos que vão marcando o nosso tempo e a geografia que os enquadra.
6 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?
Reconheço-lhe, acima de tudo, o valor das ferramentas e das bases que me deu para fazer um melhor trabalho, sobretudo no contexto dos meus colegas. Trabalho num grupo chamado “Geospatial Solutions”, onde há alguns geógrafos de formação, mas também pessoas vindas de áreas muito distintas. Ainda assim, na Suécia, a formação tende a ser menos determinante do que em Portugal. Diria, até, que o reconhecimento que tenho hoje se deve mais aos meus 20 anos de experiência do que propriamente à minha formação.
7 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspetivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?
A quem começa agora esta jornada, diria que o estudo é importante, mas não é menos relevante a forma como se constroem relações ao longo do caminho. Hoje, o mercado valoriza, muitas vezes, mais a capacidade de trabalhar em equipa e de nos relacionarmos com os outros do que as próprias competências técnicas. O curso deve ser visto como uma base sólida, mas não como um trajecto fechado. O mais importante, talvez, é manter a flexibilidade necessária para, depois dele, encontrar um caminho próprio.
8 - Comente um acontecimento recente, ou um tema atual (nacional ou internacional), tendo em conta em particular a sua perspetiva e análise como geógrafo.
Seria inevitável não falar do conflito atual entre os EUA e o Irão. No Irão temos um caso exemplar de como a geografia influencia a política e define conflitos. As características orográficas do território tornam muito difícil aos EUA vencer uma guerra naquele contexto, ao mesmo tempo que se torna evidente como o fecho do estreito de Ormuz desencadearia uma crise económica global. Ora, tudo isto é geografia, e ignorar essa componente é — e sempre foi — um erro estratégico. Diria que não há forma mais clara de explicar a importância da geografia do que mostrar como o fechar de um estreito, a milhares de quilómetros de distância, pode ter impacto direto no bolso do cidadão comum em Portugal.
9 - Que lugar recomenda para saída de campo em Portugal? Porquê?
Tenho sempre alguma dificuldade em explicar como é Portugal quando me colocam essa questão aqui na Suécia. Seja ao nível da paisagem, seja ao nível, por exemplo, da gastronomia — quando me perguntam “Que tipo de comida se come mais em Portugal? É carne? É peixe?” —, a resposta nunca é simples. A verdade é que, apesar de ser um país pequeno, Portugal tem uma diversidade muito grande, que se traduz, naturalmente, em muitas e boas opcões para saídas de campo. Ainda assim, escolho a Serra da Estrela. Mais do que pela evidência geográfica, pela memória que lhe associo: a viagem à Serra da Estrela, conduzida pelo Professor Fernando Rebelo, era um marco do curso de Geografia em Coimbra. E a forma apaixonada como falava da geomorfologia daquele território marcou gerações de geógrafos.


