# 16 Nancy Policarpo

Nome: Nancy Policarpo
Naturalidade: Londres
Idade: 43
Formação académica: Licenciatura e Mestrado em Geografia Física e Ordenamento do Território
Ocupação Profissional: Técnica Superior de Geografia – Divisão de Informação Geográfica | Município do Funchal
Outros: Analista SIG, piloto de drones, coordenação de projetos de inovação territorial e smart cities

1- Quem é a/o Geógrafo/a? Em que áreas trabalha e de que forma a Geografia faz parte da sua vida?
Sou geógrafa por formação e por paixão. Essa ligação aprofundou-se de forma decisiva após ter assistido, ainda sem plena consciência do seu significado, à aluvião de 1993 que atingiu o Funchal. Esse acontecimento marcou o meu percurso e contribuiu para traçar um caminho claramente ligado à Geografia Física e à compreensão dos processos naturais que moldam o território.
Atualmente, trabalho sobretudo nas áreas dos Sistemas de Informação Geográfica (SIG) e do ordenamento do território, com um forte enfoque na aplicação prática da Geografia ao apoio à decisão pública. A integração da tecnologia tem permitido novas leituras, análises e abordagens ao território, potenciando uma compreensão mais informada e operacional dos fenómenos espaciais.

2- Quais são os projetos para o futuro imediato? E de que forma valorizam a Geografia?
No futuro imediato, o foco está no desenvolvimento e consolidação do FNC.CITYLAB, um ecossistema territorial inteligente orientado para a governação urbana informada e para o apoio estruturado à decisão pública. Este ecossistema integra Sistemas de Informação Geográfica, deteção remota (satélite/UAV), dados abertos, digital twins, análise avançada e visualização interativa, promovendo uma leitura integrada, multiescalar e dinâmica do território.
O FNC.CITYLAB assume-se não apenas como um conjunto de ferramentas tecnológicas, mas como um modelo de organização e valorização do conhecimento territorial, onde a Geografia desempenha um papel central enquanto disciplina de síntese. Através da articulação entre dados físicos, sociais, ambientais e funcionais, o projeto permite transformar informação dispersa em conhecimento estruturado, operacional e orientado para a ação.
Desta forma, a Geografia é valorizada enquanto base conceptual e metodológica para enfrentar desafios estruturais como a sustentabilidade, o crescimento urbano, a mobilidade, os riscos naturais e a resiliência territorial, reforçando a sua relevância no contexto da administração pública e demonstrando o seu contributo direto para políticas públicas mais eficazes, coerentes e territorialmente informadas.

3- Se tivesse de definir Geografia em 3 palavras, quais escolhia?
Conhecimento. Escala. Decisão.

4 - Comentário a um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.
A Natureza do Espaço, de Milton Santos, pela forma como nos compele a pensar o território para além da técnica, integrando sociedade, poder e tempo.

5 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?
Ser geógrafa significa, antes de mais, desenvolver uma capacidade apurada de observação e análise de múltiplos fatores que interagem entre si no território. A experiência tem-me demonstrado que, quando os elementos em análise são multidisciplinares, a abordagem não pode ser única nem linear, exigindo uma leitura integrada e relacional da realidade espacial.
No exercício profissional, a principal mais-valia de ser geógrafa reside precisamente na capacidade de identificar ligações entre diferentes conjuntos de dados, compreender as suas interdependências e transformá-las em conhecimento útil. O que permite propor soluções mais robustas, mas também mais ágeis, capazes de sustentar respostas rápidas e informadas a problemas complexos.

6 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?
O reconhecimento da formação em Geografia tem vindo a evoluir, mas continua a coexistir com uma visão ainda muito associada ao ensino. Durante muito tempo, e em particular no contexto da Administração Regional e Local, o papel do geógrafo foi frequentemente reduzido a uma função instrumental, limitada à produção de cartografia ou a “desenhos” destinados a ilustrar relatórios, sem uma verdadeira valorização da análise territorial subjacente.
Gradualmente, tem sido feito um esforço consistente para desmistificar essa perceção e afirmar o real potencial dos geógrafos, sobretudo na integração de dados, na leitura crítica do território e no apoio informado à decisão. Esse reconhecimento começa a expressar-se através da participação em projetos multidisciplinares, da confiança técnica depositada e do envolvimento em iniciativas de caráter estratégico, onde a formação em Geografia se revela claramente diferenciadora.
Apesar destes avanços, trata-se ainda de uma realidade que necessita de se enraizar, exigindo continuidade, demonstração prática de valor e uma afirmação mais consistente do papel dos geógrafos enquanto profissionais-chave na governação territorial.

7 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspetivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?
A um jovem diria que a Geografia oferece ferramentas poderosas para compreender e transformar o território tal como o conhecemos, mas exige curiosidade, espírito crítico e abertura à tecnologia.
A um geógrafo diria que o futuro traz enormes oportunidades, mas também responsabilidades: comunicar melhor o nosso valor, ocupar espaços de decisão e assumir um papel ativo nos grandes desafios da sociedade contemporânea.

8 - Comente um acontecimento recente, ou um tema atual (nacional ou internacional), tendo em conta em particular a sua perspetiva e análise como geógrafo.
A evolução dos Sistemas de Informação Geográfica na Região Autónoma da Madeira evidencia um paradoxo que merece reflexão crítica. Por um lado, assiste-se a uma produção crescente de dados territoriais e a um investimento significativo em tecnologia; por outro, persistem abordagens fragmentadas, redundâncias e uma utilização dos SIG ainda excessivamente instrumental e departamentalizada.
Enquanto geógrafa, considero que o principal desafio atual não é tecnológico, mas estrutural e cultural: a ausência de uma visão integrada do território, suportada por normas comuns, governação clara da informação e verdadeira interoperabilidade entre entidades. Sem essa base, os SIG correm o risco de se reduzirem a meros repositórios cartográficos, afastados do seu verdadeiro potencial enquanto instrumentos estratégicos de apoio à decisão.
Este contexto reforça a necessidade de recentrar os SIG na lógica da governação territorial, valorizando o papel dos geógrafos como mediadores entre dados, território e decisão política. Só assim será possível transformar informação dispersa em conhecimento útil, coerente e capaz de sustentar políticas públicas mais eficazes e territorialmente informadas.

9 - Que lugar recomenda para saída de campo em Portugal? Porquê?
Sem grande surpresa (e com total consciência da suspeição), a escolha recai sobre a Madeira — não apenas por amor à camisola, mas pela densidade geográfica que concentra.
A Madeira, pela sua intensidade territorial, concentra numa escala reduzida uma complexidade excecional, funcionando como um verdadeiro laboratório vivo da Geografia. Aqui, os processos naturais e a ação humana convivem lado a lado, discutem entre si, entram em conflito e, muitas vezes, testam os limites um do outro — tudo observável no terreno, em tempo real, sem filtros e sem necessidade de zoom. É difícil encontrar outro território onde tanta Geografia aconteça em tão poucos quilómetros quadrados.
A não ser, claro, os Açores — esse outro caso sério de intensidade geográfica. Ainda assim, sendo extremamente (ou convenientemente) suspeita, a escolha mantém-se: a Madeira, um território onde a Geografia não se estuda apenas… vive-se.