#122 Cláudia Costa

Nome: Cláudia Costa
Naturalidade: Coimbra
Idade: 44
Formação académica: Licenciatura em Geografia, Mestrado em Ciência & Sistemas de Informação Geográfica e Doutoramento em Geografia Humana
Ocupação Profissional: Técnica Superior no Gabinete de Desenvolvimento Sustentável e Felicidade da Câmara Municipal de Pombal
Outros: Professora Convidada da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; Investigadora do Centro de Estudos em Geografia e Ordenamento do Território

1- Quem é a/o Geógrafo/a? Em que áreas trabalha e de que forma a Geografia faz parte da sua vida?
Sou geógrafa por formação, mas sobretudo por forma de pensar e de agir. Trabalho na interseção entre território, políticas públicas, sustentabilidade, bem estar e felicidade, procurando traduzir conhecimento territorial em decisões concretas e transformadoras. A Geografia faz parte da minha vida porque molda a forma como observo o mundo: ajuda me a compreender que os fenómenos sociais, ambientais e económicos são sempre situados, dependem de contextos específicos e produzem impactos diferenciados nos lugares e nas pessoas, incluindo na forma como vivem, adoecem ou cuidam da sua saúde.
Posso confessar que a Geografia não foi amor à primeira vista. Na escola, a Geografia não era a minha disciplina preferida — cheguei, inclusivamente, a escolher História em detrimento da Geografia, convencida de que o meu caminho não passaria por aí. Tudo mudou quando conheci verdadeiramente o curso de Geografia: percebi que era uma área muito mais ampla, crítica e aplicada do que imaginava. Apaixonei me pela forma como a Geografia lê o mundo, liga pessoas a lugares e transforma problemas complexos em perguntas concretas sobre o território.

2- Quais são os projetos para o futuro imediato? E de que forma valorizam a Geografia?
No futuro imediato, estou envolvida em projetos centrados no desenvolvimento sustentável local, no bem estar e felicidade territorial, na resiliência climática e no reforço da participação cidadã, tanto no contexto municipal como no académico. Um eixo central deste trabalho passa pela coordenação de redes URBACT, um programa europeu pelo qual sou profundamente entusiasta, precisamente porque a sua metodologia assenta numa leitura integrada do território, multi-escalar e participada — uma abordagem claramente enraizada na Geografia.
Através destas redes, tenho procurado trazer para Pombal boas práticas europeias, adaptando as à realidade local e demonstrando como o conhecimento geográfico pode ser um instrumento operativo para melhorar políticas públicas, promover inovação social e reforçar a capacidade de decisão dos territórios. Paralelamente, enquanto investigadora e professora convidada da FLUC, tenho procurado manter uma ligação ativa à Geografia da Saúde e ao Desenvolvimento Sustentável, com uma leitura alinhada com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a redução das desigualdades, cidades sustentáveis e ação climática, onde o território é sempre a variável central. Para mim, valorizar a Geografia é exatamente isto: usá la como ponte entre conhecimento científico, ação pública e transformação concreta dos territórios.

3- Se tivesse de definir Geografia em 3 palavras, quais escolhia?
Relação. Contexto. Futuro.
Relação, porque liga pessoas, lugares e processos.
Contexto, porque nada acontece isoladamente.
Futuro, porque a Geografia ajuda a antecipar e a construir caminhos mais sustentáveis, em linha com os grandes compromissos globais de desenvolvimento sustentável.

4 - Comentário a um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.
Um livro que me marcou profundamente foi A Morte e a Vida das Grandes Cidades Americanas, de Jane Jacobs, que li antes mesmo de entrar no curso de Geografia. Foi uma leitura determinante, porque me mostrou, de forma simples e extraordinariamente lúcida, como os problemas urbanos podiam ser compreendidos a partir da observação do quotidiano, das pessoas e dos lugares — e não apenas de modelos abstratos ou decisões tecnocráticas.
O que mais me impressionou foi a capacidade do livro para explicar o que estava a acontecer nas cidades e, ao mesmo tempo, identificar porque é que algumas conseguiram dar a volta, reinventar se e recuperar vitalidade. Essa leitura ajudou me a perceber que o território não é neutro, que o planeamento importa e que as cidades são sistemas vivos. Em muitos sentidos, foi um livro que me preparou para a Geografia antes mesmo de eu saber que ia ser geógrafa.
Hoje reconheço também como este livro antecipava muitas das questões que trabalho na Geografia da Saúde.

5 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?
Ser geógrafa tem para mim um significado profundo de responsabilidade social e intelectual. Implica compreender a complexidade dos territórios e assumir um papel ativo na construção de soluções mais justas, sustentáveis e inclusivas. No meu percurso profissional, a Geografia tem sido a base para ligar conhecimento científico à ação pública, ajudando a transformar diagnósticos territoriais em decisões concretas.
Mas ser geógrafo tem também um poder secreto — aquele que só quem é da área reconhece: dominamos um pouco de muitas áreas diferentes e, mais importante ainda, temos a capacidade rara de as relacionar entre si. Economia, ambiente, saúde, mobilidade, planeamento, políticas públicas, cultura: a Geografia dá nos ferramentas para cruzar saberes, integrar escalas e compreender como tudo se articula no território. A Geografia da Saúde é um exemplo particularmente claro dessa capacidade, ao mostrar como o lugar onde se vive influencia diretamente o bem estar, a exposição ao risco e as oportunidades de vida.
No dia a dia, este olhar traduz se na capacidade de fazer as perguntas certas, evitar soluções simplistas e lembrar que nenhuma decisão é neutra: todas têm impactos espaciais, sociais e humanos muito concretos. Ser geógrafa é, por isso, pensar com rigor, agir com consciência e assumir que o território é sempre parte da solução.

6 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?
Sim, a minha formação em Geografia é, em geral, reconhecida — mas é na área da felicidade e do bem estar que esse reconhecimento vem muitas vezes acompanhado de algum espanto inicial. Não é incomum que as pessoas se questionem sobre a ligação entre Geografia e felicidade. No entanto, é precisamente aí que aplico de forma clara a perspetiva geográfica.
Parto do princípio de que a felicidade é intrínseca e uma responsabilidade individual, não algo que possa ser imposto por políticas públicas. O meu papel, enquanto geógrafa, não é “produzir felicidade”, mas ler o território e a comunidade: compreender quem são as pessoas, como vivem, que oportunidades têm, que constrangimentos enfrentam e que relações estabelecem com os lugares. A partir dessa leitura territorial, procuro identificar que projetos, iniciativas ou condições estruturais podem apoiar as pessoas a viverem melhor e a sentirem se mais felizes.
Este reconhecimento da minha formação em Geografia manifesta se, assim, quando sou chamada a estruturar estratégias que cruzam espaço público, participação, saúde, coesão social e qualidade de vida. A Geografia oferece me as ferramentas para compreender o contexto, integrar escalas e desenhar respostas que fazem sentido para aquele território específico — e é precisamente isso que dá consistência e legitimidade ao trabalho desenvolvido na área da felicidade.
Esta abordagem está muito próxima da Geografia da Saúde, onde o foco não é apenas a ausência de doença, mas as condições territoriais que permitem uma vida saudável, ativa e com sentido — exatamente o que os ODS procuram promover.

7 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspetivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?
A um jovem diria que a Geografia é uma formação versátil, crítica e profundamente atual, com enorme relevância para os grandes desafios do século XXI - muitos deles consagrados nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Diria também que o futuro traz grandes oportunidades, mas também responsabilidades: é fundamental ter sentido critico, comunicar melhor, intervir mais e assumir um papel ativo na sociedade, colocando o conhecimento geográfico ao serviço do bem comum e das agendas globais de sustentabilidade.

8 - Comente um acontecimento recente, ou um tema atual (nacional ou internacional), tendo em conta em particular a sua perspetiva e análise como geógrafo.
A experiência da Tempestade Kristin foi, para mim, um exemplo muito concreto de como a Geografia é essencial antes, durante e depois de um evento extremo. Durante a fase de resposta, integrei a equipa que esteve a trabalhar no Centro de Operações, onde a leitura territorial foi central. Em conjunto com outros técnicos, participei na georreferenciação sistemática de ocorrências no território, um trabalho coletivo que incluiu não apenas o mapeamento de postes e cabos caídos, mas também o registo espacial de ocorrências municipais e levantamentos de danos em aglomerados populacionais, edifícios públicos, empresas e habitações. Esta informação geográfica partilhada permitiu apoiar a priorização de intervenções e reforçar a pressão junto das empresas de energia e telecomunicações, num contexto de grande pressão e falhas generalizadas de serviços.
Numa fase posterior, participei igualmente na avaliação da resposta do Município, procurando, em equipa, identificar o que funcionou bem, o que pode ser melhorado e quais as principais vulnerabilidades territoriais expostas pelo evento. Este exercício foi profundamente geográfico: analisar como diferentes freguesias foram afetadas, como a configuração do território condicionou a resposta e como fatores sociais, de acessibilidade e de infraestrutura influenciaram a capacidade de recuperação. Participei igualmente na construção de um plano de recuperação do território, encarando a recuperação não apenas como reposição do que existia, mas como uma oportunidade para aumentar a resiliência, reduzir riscos futuros e melhorar a qualidade de vida. Neste processo, estou também envolvida na identificação de fontes de financiamento europeu que possam apoiar a implementação das ações definidas, articulando necessidades locais com programas e instrumentos europeus. 
Este percurso — da resposta imediata, passando pela avaliação, até à recuperação estratégica — ilustra bem o valor da Geografia enquanto disciplina que liga território, trabalho em equipa, decisão pública e futuro.
Este processo evidenciou também uma dimensão central da Geografia: os impactos de um evento extremo não são iguais para todos, variam com a idade, a condição de saúde, a mobilidade e o contexto territorial.

9 - Que lugar recomenda para saída de campo em Portugal? Porquê?
Costumo dizer que qualquer lugar pode ser uma excelente saída de campo, desde que seja observado pelas lentes da Geografia. Um bairro, uma aldeia, uma praia, um vale agrícola ou um centro urbano têm sempre camadas de leitura — sociais, económicas, ambientais, culturais — que merecem ser compreendidas.
Num mundo cada vez mais rápido e fragmentado, a Geografia oferece algo raro e essencial: tempo para observar, para perceber e para relacionar. Uma saída de campo não é apenas ir a um lugar “especial”, mas aprender a ler o território, a escutar as pessoas, a identificar processos e a compreender como as escolhas feitas ao longo do tempo moldam os espaços onde vivemos. É essa capacidade de transformar o quotidiano em conhecimento que faz de qualquer lugar, quando bem observado, um extraordinário laboratório geográfico, incluindo as suas implicações para a saúde, o bem estar e a sustentabilidade.