#121 Gabriela Lima

Nome: Gabriela Narcizo de Lima
Naturalidade: brasileira
Idade: 39 anos
Formação académica: Doutora em Ciências, na área de Geografia Física, pela Universidade de São Paulo.
Ocupação Profissional: Professora Auxiliar no Departamento de Geografia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Outros: Investigadora do Centro de Estudos em Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT) nas áreas de climatologia, alterações climáticas, riscos hidrometeorológicos, recursos hídricos, ambiente urbano, ilhas de calor urbanas, governança climática e relações entre ambiente, território e sociedade.

1- Quem é a/o Geógrafo/a? Em que áreas trabalha e de que forma a Geografia faz parte da sua vida?
Sou geógrafa, professora e investigadora, com formação em Geografia Física e um percurso académico e profissional construído em torno da relação entre clima, água, território e sociedade. A Geografia faz parte da minha vida como área de formação, de investigação e de ensino, mas também como uma forma de olhar o mundo. Interessa-me compreender como os processos naturais e sociais se relacionam no território, como os riscos e as vulnerabilidades se distribuem no espaço e de que forma o conhecimento geográfico pode contribuir para sociedades mais preparadas, sustentáveis e justas.
No meu trabalho, procuro articular investigação científica, docência e colaboração interdisciplinar. A Geografia permite-me dialogar com diferentes áreas e construir análises que ligam dados, lugares e pessoas. Nesse sentido, ser geógrafa é, para mim, uma identidade profissional e também uma forma de interpretar e intervir no mundo.

2- Quais são os projetos para o futuro imediato? E de que forma valorizam a Geografia?
No presente e futuro imediato, destaco o desenvolvimento do projeto sobre os impactes e a dinâmica das Ilhas de Calor Urbanas no Porto, no qual procuro contribuir para o planeamento urbano através da construção de cenários futuros. Este trabalho parte de uma abordagem espacial, integrada e aplicada, combinando dados climáticos, informação territorial, análise urbana e preocupações sociais para apoiar decisões mais sustentáveis.
Também participo em projetos internacionais, entre os quais se destaca, neste momento, o projeto LivingSoiLL, financiado no âmbito do Horizonte Europa. Este projeto está relacionado com a elaboração de estratégias para promover a saúde dos solos, a resiliência ambiental e a sustentabilidade em culturas permanentes. Iniciativas como esta evidenciam a importância da Geografia na articulação entre ciência, território, políticas públicas e comunidades locais.
De forma geral, considero que estes trabalhos valorizam a Geografia porque demonstram a sua capacidade de produzir conhecimento útil para enfrentar problemas concretos da sociedade.

3- Se tivesse de definir Geografia em 3 palavras, quais escolhia?
Território, interdependência e transformação.
Escolho “território” porque é o espaço vivido, produzido, disputado e constantemente reorganizado pelas sociedades. “Interdependência” porque a Geografia nos ensina que os fenómenos naturais e sociais raramente podem ser compreendidos de forma isolada. E “transformação” porque os territórios estão em permanente mudança, seja por processos ambientais, sociais, económicos, políticos ou culturais.

4 - Comentário a um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.
Recomendo Urban Climates, de T. R. Oke, G. Mills, A. Christen e J. A. Voogt, publicado pela Cambridge University Press. É uma obra de referência para quem trabalha com climatologia urbana, ambiente urbano e adaptação das cidades às alterações climáticas. O livro reúne, de forma clara e sistemática, os fundamentos físicos que explicam a formação de climas urbanos específicos, abordando temas como circulação do ar em áreas construídas, ilhas de calor, modificação da precipitação e poluição atmosférica. 
É uma leitura que recomendo porque mostra como o conhecimento científico sobre o clima urbano pode ser aplicado ao planeamento e ao desenho de cidades mais sustentáveis, resilientes e saudáveis. Para mim, é particularmente relevante porque dialoga diretamente com os temas que tenho trabalhado, sobretudo as ilhas de calor urbanas, os riscos climáticos e a necessidade de integrar informação climática nas decisões sobre o território.

5 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?
Ser geógrafa tem um significado muito profundo no meu percurso académico, profissional e pessoal. A Geografia deu-me instrumentos para compreender a complexidade dos problemas ambientais e sociais, mas também para dialogar com diferentes áreas do conhecimento.
Na investigação, ser geógrafa permite-me trabalhar com temas que exigem uma leitura integrada do território. Na docência, permite-me formar estudantes para pensarem criticamente o mundo em que vivem, compreendendo que os problemas territoriais não têm uma única causa nem uma única solução.
No dia-a-dia, ser geógrafa também influencia a forma como observo os lugares. Uma rua arborizada, as inundações urbanas, as ondas de calor, as alterações no uso do solo ou a desigualdade no acesso à água deixam de ser fenómenos isolados e passam a ser parte de uma rede de relações espaciais, ambientais e sociais.

6 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?
Diria que sim, embora esse reconhecimento nem sempre seja imediato ou explícito. Em muitos contextos interdisciplinares, a formação como geógrafa é valorizada à medida que se torna clara a nossa capacidade (como geógrafos/as) de articular dimensões que, por vezes, aparecem separadas noutras áreas do conhecimento.
Na interação com pessoas de outras áreas, como saúde pública, ciências sociais, urbanismo, engenharia, ambiente ou políticas públicas, sinto que a formação geográfica pode ser reconhecida como uma “vantagem”, precisamente porque permite construir pontes entre diferentes linguagens e problemas. Esse reconhecimento expressa-se, por exemplo, quando a leitura espacial de um fenómeno ajuda a clarificar desigualdades, vulnerabilidades, padrões de risco ou prioridades de intervenção.
Mais do que uma valorização automática da Geografia enquanto área disciplinar, penso que o reconhecimento surge pela prática: pela capacidade de formular boas perguntas sobre o território, integrar informação diversa e transformar dados ambientais e sociais em conhecimento útil para compreender e atuar sobre problemas concretos.

7 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspetivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?
A um jovem que entra na universidade, eu diria que a Geografia é uma formação extremamente atual e necessária. Vivemos num tempo marcado por guerras, alterações climáticas, urbanização acelerada, desigualdades territoriais, riscos ambientais, crises hídricas, pressões sobre os recursos naturais e outros tantos desafios para o planeamento. Todos estes temas exigem profissionais capazes de compreender o território de forma integrada.
A um geógrafo ou geógrafa, diria que temos uma responsabilidade importante: produzir conhecimento rigoroso, comunicar de forma clara e contribuir para decisões mais justas, sustentáveis e territorialmente informadas. As oportunidades são muitas, mas exigem capacidade de atualização, diálogo interdisciplinar e compromisso com os grandes desafios sociais e ambientais do nosso tempo.

8 - Comente um acontecimento recente, ou um tema atual (nacional ou internacional), tendo em conta em particular a sua perspetiva e análise como geógrafo.
Um acontecimento recente que merece atenção é o episódio de chuvas intensas que afetou Portugal em janeiro deste ano, num contexto de sucessivas depressões e de elevada saturação dos solos. Mais do que um fenómeno meteorológico isolado, este episódio evidencia a importância de compreender os riscos climáticos a partir de uma perspectiva territorial.
Do ponto de vista geográfico, a precipitação intensa não se transforma em risco apenas pela quantidade de chuva que ocorre. O risco resulta da combinação entre perigosidade, exposição e vulnerabilidade: depende das características físicas das bacias hidrográficas, do relevo, do grau de impermeabilização do solo, da ocupação de áreas inundáveis, do estado das infraestruturas de drenagem, da capacidade de resposta das instituições e das condições sociais das populações afetadas.
O caso de janeiro mostra também a importância da escala. O mesmo episódio pode ter efeitos muito diferentes consoante o território: zonas urbanas densamente impermeabilizadas podem enfrentar inundações rápidas por insuficiência ou obstrução dos sistemas de escoamento; áreas ribeirinhas podem ser afetadas pela subida dos caudais; regiões montanhosas ou com vertentes instáveis podem registar movimentos de massa; e territórios com populações mais envelhecidas ou com menor capacidade económica podem revelar maior vulnerabilidade.
Enquanto geógrafa, considero que estes eventos reforçam a necessidade de integrar conhecimento climático, hidrológico e territorial no ordenamento do território e na adaptação às alterações climáticas. Não basta responder à emergência; é necessário planear melhor, reduzir a exposição, proteger áreas sensíveis, recuperar funções naturais do solo e da vegetação, melhorar a drenagem urbana e produzir cartografia de risco que apoie decisões públicas mais eficazes.
As chuvas intensas de janeiro de 2026 lembram-nos que a adaptação climática não é apenas uma agenda ambiental: é uma questão de planeamento, justiça territorial e segurança das populações.

9 - Que lugar recomenda para saída de campo em Portugal? Porquê?
Devo dizer que ainda me falta conhecer muitos lugares de Portugal, e tenho um grande desejo de o fazer. Portugal é um país de grande diversidade paisagística, ambiental e cultural, e essa diversidade oferece muitas possibilidades para o ensino e a investigação em Geografia.
Dito isso, recomendaria uma saída de campo à região do Alto Douro, em particular às paisagens vinícolas do Douro. Trata-se de um território que permite observar de forma integrada a relação entre relevo, clima, solos, água, usos do solo, práticas agrícolas, património, economia regional e transformação da paisagem.
As paisagens vinícolas do Alto Douro mostram como a ação humana, ao longo do tempo, modelou vertentes, adaptou técnicas agrícolas às condições naturais e construiu uma paisagem cultural marcada pela produção do vinho. Ao mesmo tempo, é uma região que permite discutir desafios atuais, como a erosão dos solos, a gestão da água, os impactes das alterações climáticas na produção agrícola, os riscos ambientais e a sustentabilidade das atividades económicas em territórios rurais.