#120 Beatriz Pinto

Nome: Beatriz Gomes Pinto
Naturalidade: Penafiel
Idade: 23 anos
Formação académica: Licenciatura em Geografia e Planeamento, pela Universidade do Minho, e Mestrado em Geografia – Especialização em Riscos e Proteção Civil, pela mesma instituição.
Ocupação Profissional:
Outros: Bolseira de investigação no âmbito do Projeto InPUT - Engaging Places and Communities for Inclusive Peri-Urban Transitions, financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e tornado possível pelo Driving Urban Transitions (DUT).

1- Quem é a/o Geógrafo/a? Em que áreas trabalha e de que forma a Geografia faz parte da sua vida?
Sou geógrafa por formação e encontro-me numa fase inicial do meu percurso, em que continuo a consolidar conhecimentos, a ganhar maturidade científica e a aprofundar a minha experiência na área da Geografia.
A minha atividade tem-se centrado no desenvolvimento de investigação científica, com posterior publicação, sobretudo na compreensão dos impactes dos riscos nas comunidades locais e na definição de medidas de mitigação e adaptação, particularmente no contexto das alterações climáticas e dos eventos de calor extremo. Em simultâneo, no âmbito do projeto de investigação em que estou inserida, nomeadamente o Projeto InPUT, tenho trabalhado sobre as dinâmicas territoriais periurbanas, com foco na acessibilidade e na proximidade.
Além de área de formação, a Geografia faz parte do meu dia-a-dia, especialmente na forma como observo o mundo e como procuro compreender as interdependências entre os diferentes elementos que o compõem. 

2- Quais são os projetos para o futuro imediato? E de que forma valorizam a Geografia?
No futuro imediato, pretendo continuar a consolidar a minha experiência na área da investigação científica, através do projeto InPUT, de modo a potencializar as minhas competências de análise territorial e a compreensão de diferentes realidades europeias. 
Paralelamente, tenho interesse em continuar a aprofundar as áreas com as quais tive maior contacto durante o mestrado, nomeadamente os riscos e a vulnerabilidade social. Neste sentido, procuro aplicar o meu conhecimento de forma mais prática e iniciar o meu percurso no contexto profissional da área. 
Considero que estes trabalhos podem contribuir para a valorização do papel da Geografia enquanto ferramenta essencial para compreender as problemáticas atuais e apoiar a tomada de decisão mais informada e integrada. 

3- Se tivesse de definir Geografia em 3 palavras, quais escolhia?
Tudo; Interpretação; Transformação.

4 - Comentário a um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.
No meu quotidiano é mais habitual a leitura de trabalhos académicos e técnicos. Ainda assim, valorizo profundamente o papel dos livros enquanto método de interpretação dos territórios, com o qual tenho contacto através de outras formas de narrativas.
Nesta perspetiva, destaco a influência da série web colombiana La primera vez, criada e escrita por Dago García, em que cada episódio é inspirado por diferentes obras literárias. Esta produção utiliza a literatura como um ponto de partida para refletir sobre as normas sociais, as dinâmicas culturais e o contexto histórico da sociedade colombiana, permitindo uma leitura muito interessante da geografia política, social e cultural do país.
Através desta abordagem, a série proporciona a descoberta de uma vasta seleção de livros, que funcionam como recomendações de leitura para inspirar a reflexão sobre a evolução e a transformação de uma dada sociedade e do seu território. 

5 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?
Ser geógrafa, para mim, revelou-se ir além da teoria, assumindo-se quase como uma característica pessoal, uma vez que a visão do que me rodeia passou a ser influenciada pelo modo como interpreto o território e as relações que o compõem.
Ao longo do meu percurso académico, fui desenvolvendo uma maior consciência das desigualdades espaciais, dos riscos e das dinâmicas que moldam os lugares, em diferentes escalas e contextos. Por essa razão, a minha investigação tem-se debruçado na identificação e na definição de propostas de carácter adaptativo e mitigador, com o objetivo de contribuir para a potencial melhoria da qualidade de vida das comunidades que estudo.

6 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?
Ainda não tenho uma experiência consolidada de interação profissional continuada com parceiros externos, pelo que não me é possível responder de forma plena a esta questão no sentido de reconhecimento direto da minha prática enquanto geógrafa. 
Contudo, no contexto de investigação, essa interação é constante com geógrafos por formação, pelo que o valor da Geografia é mutuamente reconhecido. Além disso, na colaboração com equipas de diferentes países e de áreas de especialidade distintas, o ambiente é de integração, em que todas as perspetivas se cruzam e todos são valorizados.

7 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspetivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?
Enquanto jovem geógrafa, reconheço que a Geografia é uma área que não é imediatamente valorizada ou compreendida na sua totalidade na entrada do curso, sendo comum que o interesse e o gosto se consolidem ao longo ou depois do percurso. Ainda assim, é precisamente essa evolução que demonstra a sua riqueza. 
A quem inicia este percurso, diria que se trata de uma das áreas mais abrangentes e atuais, que permite compreender o mundo nas suas múltiplas dimensões e que apresenta oportunidades diversas, mas que exige uma capacidade de adaptação e uma aprendizagem contínua.
Ao geógrafo, diria que temos uma responsabilidade acrescida na forma como comunicamos o território e, por isso, considero fundamental reforçar a valorização e a divulgação da Geografia e do trabalho dos geógrafos, tendo em vista aumentar o nosso reconhecimento social, a nossa presença no debate público e reforçar a nossa projeção profissional.

8 - Comente um acontecimento recente, ou um tema atual (nacional ou internacional), tendo em conta em particular a sua perspetiva e análise como geógrafo.
Um tema que considero urgente e particularmente relevante é a pobreza energética, sendo esta uma problemática crescente no panorama nacional português. Este fenómeno  multidimensional resulta da combinação entre baixos rendimentos, elevados custos energéticos e fraca eficiência térmica do parque habitacional, contribuindo para situações de vulnerabilidade, que se manifestam de forma desigual no território e com impactes negativos na qualidade de vida das populações.
Na minha dissertação de mestrado, analisei a vulnerabilidade energética num contexto de alterações climáticas, em articulação com o risco do calor extremo, no município de Penafiel, no ano de 2021. Os resultados evidenciaram uma maior vulnerabilidade em áreas mais urbanizadas, associada à elevada densidade populacional, à predominância de um parque habitacional envelhecido e energeticamente ineficiente e ao desfasamento de incentivos entre proprietários e arrendatários, que frequentemente limita a realização de intervenções de reabilitação. Por outro lado, os territórios rurais, embora menos vulneráveis, apresentam também desafios, nomeadamente na capacidade de investimento na melhoria das condições habitacionais. Esta menor vulnerabilidade está, em parte, associada à maior presença de espaços verdes, que funcionam como mecanismos naturais de arrefecimento e reduzem a retenção térmica típica das áreas urbanas.
A análise desenvolvida reforça a importância de uma leitura integrada do território, evidenciando a interdependência entre energia, clima e estrutura socioeconómica, bem como a necessidade de articular as diferentes vertentes políticas. Neste contexto, a identificação de padrões espaciais torna-se fundamental para apoiar a definição de estratégias de mitigação e adaptação mais ajustadas às especificidades locais. A Geografia assume, assim, um papel determinante na construção de respostas mais justas, eficazes e territorialmente equilibradas.

9 - Que lugar recomenda para saída de campo em Portugal? Porquê?
Como natural de Penafiel, não poderia deixar de recomendar o meu próprio município e, de forma mais abrangente, a região do Tâmega e Sousa. Este território é relevante pela diversidade de paisagens e pela coexistência de espaços distintos, desde eixos mais densos e industrializados até áreas predominantemente rurais. 
Esta região permite, assim, observar os desafios estruturais como o despovoamento, o envelhecimento da população e as desigualdades no acesso a serviços e a infraestruturas. Todavia, também apresenta oportunidades associadas à proximidade a grandes centros urbanos e à valorização dos recursos locais, como é o caso da iniciativa da Rota do Românico, orientada para a promoção do património e do território. 
Assim, esta região constitui um contexto privilegiado para compreender diferentes dinâmicas e formas de ocupação e organização do espaço, bem como para analisar os desafios contemporâneos do ordenamento do território. 
Esta menção poderá servir para dar visibilidade a uma região que nem sempre assume grande expressão no discurso público, reforçando, desta forma, a coesão territorial e a identidade regional que tanto valorizo.