# 114 Carla Aleixo

Nome: Carla Maria Figueira Aleixo
Naturalidade: Beja
Idade: 52
Formação académica:
- Licenciatura em Geografia e Planeamento Regional (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas; Universidade Nova de Lisboa);
- Profissionalização em Serviço (Instituto Politécnico de Beja; Escola Superior de Educação de Beja);
- Pós-Graduação em Administração e Gestão Escolar (Instituto Superior de Ciências S#ociais e Políticas; Universidade Técnica de Lisboa);
Ocupação Profissional: Docente de Geografia no Agrupamento de Escolas de Vidigueira
Outros: Formadora

1- Quem é a/o Geógrafo/a? Em que áreas trabalha e de que forma a Geografia faz parte da sua vida?
Alentejana, com orgulho na sua terra e nas suas gentes e tradições! Curiosa, recetiva à mudança e sempre com vontade de aprender e conhecer mundo!
Sou professora de Geografia do Ensino Básico e Secundário desde 1995, altura em que, não obstante a licenciatura não estar concluída, comecei a lecionar, devido à então enorme falta de profissionais na área. Licenciatura concluída e durante cerca de 4 anos, tentei, em vão, conseguir trabalho na área do Planeamento e Ordenamento do Território, em Autarquias, Gabinetes Técnicos Locais… mas, sem resultados positivos, continuei no mundo da Educação, que cada vez mais me fascinava e envolvia. E foi assim que a nível profissional consolidei a minha atividade como docente.
Ao longo dos anos, lecionei a disciplina de Geografia principalmente no 3.º ciclo, mas também no ensino secundário e profissional e desempenhei várias funções/cargos.
Atualmente, além de docente de Geografia de 8º ano, desempenho o cargo de Subdiretora do Agrupamento de Escolas de Vidigueira e sou coordenadora da Estratégia de Educação para a Cidadania na escola, de Projetos, do Programa Eco-Escola, do Clube Europeu, do Programa Erasmus+ e Mentora eTwinning. Estas funções, desafiantes e exigentes, articulam-se e complementam-se na sua verdadeira missão - o sucesso educativo dos alunos, cidadãos do Alentejo, da Europa e do Mundo.

2- Quais são os projetos para o futuro imediato? E de que forma valorizam a Geografia?
Projetos profissionais relacionados com o Programa Erasmus+ e eTwinning, quer ao nível escolar com alunos, quer ao nível de desenvolvimento profissional e como formadora nesta área.
Com o desenvolvimento destes projetos europeus:
- os alunos aplicam conhecimentos geográficos em situações reais, promovendo uma cidadania ativa e informada e gerando aprendizagens que reforçam o valor da disciplina como ciência social que explica relações entre pessoas, territórios e culturas;
- os docentes utilizam metodologias inovadoras, ferramentas digitais, desenvolvem a capacidade de trabalhar temas globais e interdisciplinares e em rede.
Em suma, estes projetos estimulam, promovem e valorizam a Geografia devido ao seu caráter multidisciplinar, dinâmico, inovador e atual.

3- Se tivesse de definir Geografia em 3 palavras, quais escolhia?
Espaço (território), sociedade e conhecimento (do mundo).

4 - Comentário a um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.
“A mais alta solidão” de João Garcia. As descrições de todo o trabalho, resiliência, adaptação e superação física e emocional transportam-nos até paisagens imponentes e deslumbrantes, mas também inóspitas e mortais no Monte Everest, na Cordilheira dos Himalaias. Para além do relato de alpinismo feito na 1ª pessoa, o livro constitui uma reflexão profunda sobre os limites humanos, a solidão extrema e a relação entre o ser humano e a montanha — tornando-se, por isso, uma leitura inspiradora e marcante.

5 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?
A capacidade de ter uma perspetiva de charneira, própria do olhar geográfico, acompanha-me de forma constante no que fiz e no que faço.
Ser geógrafo significa, para mim, a capacidade de compreender o mundo na sua complexidade, ligando territórios, pessoas, culturas e dinâmicas em diferentes escalas. No dia a dia como docente de Geografia do 3.º ciclo, essa perspetiva traduz-se na preocupação de formar alunos críticos, conscientes do espaço que habitam e do seu papel enquanto cidadãos. No desempenho de funções de Gestão Escolar, o pensamento geográfico ajuda-me a ler contextos, antecipar impactos e tomar decisões, o mais equilibradas possível, com os recursos humanos e materiais disponíveis, além dos condicionantes determinados pelos normativos legais.
Ao nível da coordenação de projetos, ser geógrafo permite-me construir pontes entre o local e o europeu, valorizando identidades, promovendo cooperação e dando sentido territorial às políticas educativas e às oportunidades geradas por programas e fundos europeus.
Mais do que uma profissão, a Geografia é uma forma de pensar e de estar, que orienta as minhas escolhas e norteia as minhas ações.

6 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?
Na interação que estabeleço com os parceiros no exercício da minha atividade, penso (pois não é fácil “medir” esse reconhecimento) que a minha formação em Geografia é reconhecida de forma natural. Quero acreditar que esse reconhecimento se manifesta, sobretudo, na maneira como abordo as questões educativas, marcada por um olhar atento ao território, às inter-relações e às dinâmicas económicas, sociais e espaciais. Essa valorização traduz-se na confiança que colegas, equipas de gestão e parceiros externos depositam em mim, nomeadamente para articular o currículo com o território e com a educação para a cidadania, tornando as aprendizagens mais significativas, contextualizadas e próximas da realidade dos alunos. O pensamento geográfico não se limita à reflexão teórica, mas está presente na forma como planeio, organizo e desenvolvo a ação educativa.
Este reconhecimento torna-se também visível através dos convites que tenho recebido para participar em seminários, mesas-redondas e podcasts, promovidos, por exemplo, pelo Serviço Nacional de Apoio eTwinning e pelo Centro de Informação Europe Direct do Baixo Alentejo. Estes momentos de partilha reforçam a perceção de que a Geografia é entendida como uma mais-valia na reflexão sobre educação, território e cidadania. No contexto dos projetos europeus e das parcerias internacionais, a minha formação em Geografia é particularmente valorizada, uma vez que facilita a compreensão de diferentes realidades educativas, culturais e territoriais. A capacidade de dialogar com escolas de outros países, interpretar os seus contextos e integrar essas diferenças no trabalho pedagógico é frequentemente associada à minha formação de base. É neste plano, essencialmente educativo, que a Geografia se pode afirmar. Disciplina relevante e atual, capaz de contribuir para uma escola mais aberta ao mundo e mais consciente do território que a envolve.

7 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspetivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?
A um jovem que está a entrar na universidade e pondera uma formação em Geografia, a primeira coisa que lhe diria é: Escolha inteligente!!! Boa escolha! A Geografia é muito mais do que mapas ou nomes de lugares; é uma forma de aprender a olhar o mundo com curiosidade, atenção e espírito crítico. É compreender como os lugares influenciam as pessoas e como as decisões humanas moldam os territórios, os seus impactos, as suas vivências e experiências.
Num mundo em rápida transformação, marcado por desafios ambientais, sociais, tecnológicos e geopolíticos, a Geografia oferece ferramentas essenciais para ler essa complexidade e para intervir de forma consciente e responsável. É um curso exigente, mas profundamente enriquecedor, que abre portas a múltiplos percursos profissionais e, acima de tudo, ensina a pensar de forma integrada, a ligar escalas, problemas e soluções. Dir-lhe-ia também que não se limite à sala de aula: viajar, participar em ações de voluntariado, envolver-se em projetos locais e “calcorrear o território”, mesmo o mais próximo, são experiências fundamentais para dar sentido ao que se aprende na universidade. A inspiração e o legado de geógrafos como Raquel Soeiro de Brito mostram-nos precisamente isso: uma Geografia feita no terreno, atenta às pessoas, às culturas e aos lugares.
Desde que os jovens (e os menos jovens!) geógrafos se mantenham atentos, curiosos e conscientes do seu papel na sociedade, haverá sempre espaço para intervir de forma relevante. Mais do que um título académico, ser geógrafo é uma forma de estar no mundo: com sentido ético, responsabilidade e vontade de fazer a diferença, começando no território próximo e pensando sempre à escala do mundo.

8 - Comente um acontecimento recente, ou um tema atual (nacional ou internacional), tendo em conta em particular a sua perspetiva e análise como geógrafo.
Um tema atual de grande relevância foi a realização da COP30, associada à premente questão das alterações climáticas.
Realizada no passado mês de novembro, entre 10 e 21 de novembro, em Belém (do Pará), na Amazónia, a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (Conferência das Partes), permitiu que líderes mundiais - não obstante tensões geopolíticas- cientistas, organizações não governamentais e representantes da sociedade civil discutissem ações para combater as mudanças do clima que tanto afetam a nossa “casa”.
Este ano letivo, aproveitando a potencialidade dos projetos internacionais, esta temática está a ser desenvolvida no âmbito do projeto eTwinning “Climate Action - Major Tom to Planet Earth”, pelos alunos do Clube Europeu (Clube que coordeno e dinamizo à 6ª feira à tarde, com alunos, em regime de voluntariado, de 2º e 3º ciclos) em parceria com escolas de Itália, França, Lituânia e Turquia. Através deste trabalho colaborativo, os alunos analisam as causas e consequências das alterações climáticas, comparando realidades territoriais distintas e percebendo que os impactos não são homogéneos no espaço. Para além do diagnóstico, o projeto privilegia uma abordagem ativa e orientada para a ação, desafiando os alunos a procurar soluções concretas, começando pelas mais simples e próximas, sobre as quais podem ter intervenção direta no seu quotidiano.
Enquanto geógrafa e profissional da educação, considero fundamental que a Geografia vá além da explicação dos problemas, promovendo a formação de cidadãos conscientes, críticos e responsáveis. Este projeto tem vindo a permitir aos alunos compreender que as grandes decisões globais, como as discutidas na COP30, se relacionam com escolhas individuais e coletivas, reforçando a ideia de que todos têm um papel a desempenhar na construção de territórios mais sustentáveis.

9 - Que lugar recomenda para saída de campo em Portugal? Porquê?
Sem qualquer dúvida, o Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Além de ser um dos meus destinos pessoais preferidos, com paisagens que cortam a respiração ao mesmo tempo que a brisa marítima renova energias e sossega o espírito e a alma, é um território que, devido às suas características naturais e humanas, permite explorar diferentes domínios das aprendizagens essenciais da Geografia no ensino básico e secundário.
Este território constitui um verdadeiro laboratório a céu aberto, permitindo a observação integrada da dinâmica litoral, da relação entre processos naturais e a ocupação humana do espaço e das implicações ambientais associadas à atividade turística e às práticas agrícolas.
Por fim, não podemos esquecer que este território, inserido em contexto de paisagem protegida por lei desde 1988 (primeiro como Área Protegida e depois, em 1995, como Parque Natural), oferece ainda condições privilegiadas para a análise da biodiversidade e para a reflexão sobre estratégias de conservação e gestão sustentável do território.