Teresa Barata Salgueiro

 TERESA BARATA SALGUEIRO

30/05/2016

Professora catedrática da Universidade de Lisboa. Directora do IGOT desde a sua fundação em 2009 até dez 2013.

Presidente da Direcção da APG, Associação Portuguesa de Geógrafos (1988 a 1991), mantendo-se directora do INFORGEO até finais de 1992. Presidente da Mesa da Assembleia Geral desta Associação entre 1993 e 1995 e desde Março de 2016.

Autora de grande número de textos, entre os quais se incluem livros marcantes na Geografia Portuguesa como A Cidade em Portugal. Uma Geografia Urbana; Do Comércio à Distribuição. Roteiro de uma Mudança; Lisboa. Periferia e Centralidades.

Coordenou vários projectos de investigação, alguns internacionais, de entre os quais se podem destacar REPLACIS – Retail Planning for cities sustainability, e CHRONOTOPE, Time-Space Planning for Resilient Cities

1 - Comentário a um livro que a marcou ou cuja leitura recomende 

Quando já se levam 50 anos de estudos de geografia muitos foram os livros que marcaram por razões diferentes. Uns fazem-no porque abrem horizontes para novos temas e novas interpretações. Outros porque vêm ao encontro das interrogações e das hipóteses que colocamos num dado momento.

Fugindo ao horizonte da língua portuguesa em que se destacam as obras dos meus mestres directos e a minha própria produção, e cingindo-me ao universo dos geógrafos de escritas latinas ou anglófonos, posso apontar três obras marcantes na Geografia Urbana, escolhendo a mais recente porque as outras duas são hoje ‘clássicos’ que a maioria dos geógrafos já leu. Trata-se de Condition of Post Modernity de David Harvey, Cities of Tomorrow de Peter Hall, e Agentes Urbanos y Mercado Inmobiliario de Horacio Capel. A escolha de qualquer um destes livros decorre daquilo que penso ser o essencial da geografia, compreender o mundo, a superfície da terra onde os grupos humanos, ao longo da História, foram interagindo e modificando a natureza, produzindo território como espacialidade. Estudar os riscos e os desafios colocados pela vida num determinado ambiente, a capacidade e as motivações para agir na sua apropriação, ou seja, o processo de construção da terra habitada. Desde cedo orientada para a Geografia Humana, estas preocupações gerais focaram-se progressivamente nas cidades. Sou particularmente sensível às mudanças e ao incrementar do ritmo com que ocorrem nas sociedades e nas cidades. Qualquer um destes livros traz respostas que ajudam a percebê-las.

D.Harvey explica a passagem da Modernidade para a Pós-Modernidade, valorizando as questões da cultura e da economia política, em paralelo com o papel da tecnologia das comunicações na experiência do tempo e do espaço. Todos os geógrafos deviam ler este livro que trata problemas e relações chave na geografia. P.Hall oferece uma síntese muito completa da evolução das ideias sobre a cidade ocidental e do planeamento desde o século XIX, numa obra que se recomenda vivamente a todos os que intervêm no planeamento e gestão das cidades.

O livro de Capel[1] retoma, com outro fôlego e informação, uma obra de 1981 que me impressionou porque então trabalhava no doutoramento sobre a produção do espaço urbano. Apresenta os agentes da transformação do espaço, quem são, o peso que têm e o seu papel. O simples facto de estar vivo faz-nos participar da alteração constante do território, qualquer decisão que tomamos tem impactos espaciais, deixa marcas nos lugares. Todos somos actores e agentes. Produto de enorme informação, uma profunda reflexão e grande rigor, H. Capel partilha com os leitores o seu esforço “para entender o que se está passando, a forma como se constroem as cidades e se elabora a sua morfologia” (p11). Valorizando a perspectiva histórica (mas não recuando quase nunca além do sec.XIX), o material que fornece permite fazer uma “reflexão que olha para o futuro, para o que a cidade deve ser, melhor do que aquela que temos, injusta e cheia de problemas” (p.12).

Depois de propor uma distinção entre actores e agentes, sem esquecer que muitos actores em dados momentos se transformam em agentes através dos movimentos sociais, o livro trata na primeira parte dos vários agentes que intervêm no mercado imobiliário e das suas estratégias, designadamente face às crises, e na segunda do mercado de habitação, salientando sempre os aspectos novos. De facto, no acesso à cidade e à habitação há questões que permanecem, dados e problemas novos que importa estudar e procurar resolver.

O desenvolvimento do capital financeiro, o esbater da relevância dos planos gerais, a emergência, nos agentes de carácter técnico, dos advogados, a mudança de escala nas operações de promoção, financiamento e construção que ocorreram nos últimos 30 anos, em paralelo com os enormes volumes de capital disponíveis em busca de oportunidades de investimento permitiram que o espaço urbano se tivesse convertido em objecto privilegiado de acumulação do capital. A gestão urbana por projectos facilita a regeneração de partes do tecido urbano e a sua valorização rápida. A própria auto-construção não escapa a essa lógica.

Apontando temas de pesquisa, defendendo maior regulação, planeamento e diálogo entre técnicos e cidadãos, Capel não deixa, no domínio da habitação, de apontar necessidade de inovar nas políticas sociais, aprofundando as experiências da promoção habitacional com apoio público desde o Movimento Moderno de modo a alcançar-se mais coesão social e equilíbrio territorial (p.383).

 

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?

A formação em Geografia ensina-nos a ler e questionar o território no sentido de perceber como se organiza e funciona, a identificar problemas e dinâmicas, a procurar explicações. Ela oferece a capacidade de compreender a diversidade de ambientes e de grupos e das suas inter-relações, de respeitar a diversidade, de fazer a integração disciplinar.

Esta formação abriu-me a possibilidade de ligar o conhecimento com a aplicação prática, designadamente no domínio do planeamento e gestão do território, e de exercer uma cidadania activa através de uma participação informada nas questões da vida colectiva. Outro ponto forte desta formação prende-se com as ferramentas que fornece, como o treino da observação.

Os problemas têm uma raiz epistemológica. Posso referir alguma fragilidade teórica e metodológica e pouca clareza conceptual. Vivi fases de transição marcadas por excesso de empirismo e repetição de análises que a leitura de Kuhn, o contacto com outras “escolas” e o passar do tempo me ajudaram a relativizar.

Também devo apontar o dilema entre as vantagens da totalidade, com a integração de vários ramos do saber, e os riscos da fragmentação que a especialização em campos estreitos da investigação comporta, ou ainda a dificuldade de optar entre uma formação de profissionais ou de investigadores.

 

3 - Na interacção que estabelece com parceiros no exercício da sua actividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?

A geografia tem uma grande abertura a outros ramos do conhecimento. Os geógrafos conhecem a produção de sociólogos, geólogos, biólogos, entre outros, e citam os respectivos trabalhos. O trabalho dos geógrafos faz-se quase sempre em equipas pluridisciplinares. São tradicionalmente valorizados pela sua capacidade de integrar conhecimentos, especialmente entre as ciências físico-naturais e as ciências sociais. Também pelo gosto pelo trabalho de campo, a facilidade de contacto com o ‘real’, a representação cartográfica dos fenómenos e, mais recentemente, o domínio dos instrumentos de SIG.

A situação actual é bastante diferente da que eu vivi. Há simultaneamente mais reconhecimento e mais concorrência com outras disciplinas que emergiram ou se consolidaram, enquanto a Geografia perdeu algum protagonismo.

 

4 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspectivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?

A superfície da terra é finita mas nunca está totalmente conhecida porque o território é simultaneamente um produto e um mediador da agência humana e das práticas sociais e, por isso, condiciona as leituras que sobre ele se fazem e as intervenções que visam transformá-lo. Como sistema de interacção é dinâmico e as várias componentes (naturais e sociais) transformam-se permanentemente, mas fazem-no em tempos com diferentes durações. A compreensão dos processos dos sistemas sociais e biofísicos permite avaliar os seus ritmos e tendências evolutivas, bem como os respectivos limiares de resiliência, fundamentais para a utilização sustentável do território. Neste contexto, os saberes integrados da Geografia constituem uma mais-valia na avaliação das interacções entre o ambiente natural e a sociedade.

O território faz a diferença entre regiões, países e cidades num mundo unificado pela globalização. Conhecer e valorizar as características de cada lugar é indispensável para a sustentabilidade e boa gestão. A própria EU reconheceu a necessidade de acrescentar a coesão territorial às políticas de coesão. Há diferenças e desigualdades que importa valorizar ou reduzir.

As alterações climáticas, o esgotamento de muitos recursos, o aumento dos danos provocados por catástrofes, o crescimento das migrações de populações, o aumento das desigualdades entre condições de vida e territórios minam a coesão social e territorial e ameaçam qualquer equilíbrio.

Torna-se necessário re-inventar o território, encontrar novas soluções de emprego, captar e reter investimentos e visitantes, mudar o uso das áreas em declínio. Isto implica a necessidade de integrar o planeamento económico e o social com o planeamento físico, numa atitude que responda aos novos desafios das mobilidades e da sustentabilidade e que não tenha apenas por objectivo resolver problemas e evitar ameaças, mas também criar oportunidades.

Portanto, as oportunidades para a intervenção dos geógrafos são muitas. É preciso estudo, rigor na análise, divulgar os resultados, alertar os governantes e a sociedade em geral para os problemas, as suas causas e possibilidades de os mitigar ou resolver. Usar o conhecimento como base para participar na vida colectiva e procurar visibilidade na sociedade mediática em que vivemos faz também parte da responsabilidade como cidadãos e como geógrafos.

 

5 - Queríamos pedir-lhe que escolha um acontecimento recente, ou um tema actual,  podendo ambos ser de âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha, e comente-o, tendo em conta em particular a sua perspectiva e análise como geógrafo.

Escolho a regeneraçao urbana porque: (i) traduz uma mudança de política que vai ao encontro das preocupações com a sustentabilidade, porque procede á reutilização de territórios em vez de promover novas frentes de urbanização; (ii) reflecte a inserção global dos lugares ao ser instrumento da concorrência entre territórios para mudar a imagem de áreas em declínio e torná-las atractivas ao investimento e à residência; (iii) aplica o planeamento estratégico e os novos princípios de governança ao ser executada por parcerias público-privadas e recorrer a operações de marketing e re-imagem; (iv) suporta a revalorização dos sítios onde se aplica bem como a gentrificação residencial e funcional contribuindo para o aumento das desigualdades dentro de cada cidade e entre cidades, o que nos alerta para os perigos que comporta.

 

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?

Qualquer lugar porque a escolha depende do objectivo que se procura atingir, da experiência anterior e do quadro mental que informa quem vê. No geral a saída de campo serve para contactar uma certa realidade e pôr as perguntas clássicas O quê? Onde [está o quê]?Como [se organiza]? Porquê?

Até uma praia cheia de gente e com 2 vendedores de gelados, num dia de verão, serve para ilustrar a Teoria dos Lugares Centrais, pilar da explicação na geografia humana durante os ’30 gloriosos’. Ao colocarem-se lado a lado no centro da praia ou localizando-se a ¼ de cada um dos limites extremos, ajudam a discutir a questão das distâncias percorridas e os conceitos base dessa teoria.

 


[1] Horacio Capel, 2013, Agentes Urbanos y Mercado Inmobiliario, vol III de La Morfologia de las Ciudades. Barcelona. Ediciones del Serbal.