Rui Jacinto

Rui Jacinto

Geógrafo.

Técnico na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro. Membro da Comissão Executiva do Centro de Estudos Ibéricos [CEI] em representação da Universidade de Coimbra. É membro do Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT) - Foi durante mais de 30 anos Assistente Convidado no Departamento de Geografia da Universidade de Coimbra. Trabalhos sobre dinâmicas económicos e sociais, ordenamento e reestruturação dos territórios, papel dos actores e importância das políticas e nos processos de desenvolvimento regional e local. Tem ainda publicações sobre cooperação territorial, particularmente a transfronteiriça, geografia literária e rotas de escritores. Participação em vários projectos de investigação, nacionais, transfronteiriços e internacionais; nos últimos anos tem desenvolvido diferentes iniciativas de cooperação entre geógrafos dos Países de Língua Portuguesa, sobretudo Brasil e Cabo Verde. Gestão de Programas Operacionais Regionais apoiados pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER): Gestor do Programa Operacional da Região Centro  (IIº  (1994-1999) e IIIº Quadro Comunitário de Apoio (2000-2006), Secretário Técnico do Programa Operacional da Região Centro (2007-2012). Preparação, acompanhamento e avaliação de projectos e iniciativas locais (Iniciativas Comunitárias Interreg e Leader).

Entrevista. APG

1 - Comente um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.

O meu relacionamento com os livros e o universo que os envolve, tanto no plano académico como literário, foi ditado pelas circunstâncias e pelo desenrolar do itinerário pessoal e profissional. Esta geografia vivida e uma certa idiossincrasia, avessa a uma corrente única e um estilo absoluto, dificultam a escolha imediata dum livro.

Pelo exposto e pelo significado pessoal referirei dois livros que, embora contrastantes, porventura antagónicos, mostram como caminhos divergentes se podem complementar e convergir na leitura e interpretação do mundo que nos rodeia: Portugal (Miguel Torga, 1950), pela “geograficidade” e poética latentes e Spatial Organization: The Geographer's View of the World (Ronald Abler, John S. Adams, Peter Gould; 1971), pelo significado e repercussão.

A 3ª edição do Portugal, de Miguel Torga, publicada em 1967, revista e remodelada, como refere a cinta que ainda serve de marcador, foi um dos primeiros livros que adquiri, cuja citação justifico como tributo a uma geração de autores de culto: Orlando Ribeiro (nascido em 1911) e Alfredo Fernandes Martins (1916), ambos geógrafos, e Miguel Torga (1907) e Fernando Namora (1919). À semelhança do geógrafo com o trabalho de campo, também Torga recorre à viagem por lugares e territórios de eleição, que acaba por mitificar, para tecer uma geografia literária de cunho imaginário e simbólico que trespassa toda a obra.

O livro evidencia ainda como pode ser fecundo o diálogo entre a geografia e a literatura, entre escritores e geógrafos: não será por acaso que Miguel Torga, numa entrada do seu Diário (Coimbra, 2 de Março de 1943) se refere à troca de ideias com um seu amigo geografo – só pode ser Alfredo Fernandes Martins –, para que “fizesse do homem um dos elementos fundamentais da geografia”, aprofundando “a compreensão da sua intima realidade”; argumenta este “com razões de método” e o “sarilho científico que seria semelhante geografia psicológica”. Também não será de animo leve que Orlando Ribeiro colocou um poema de Miguel Torga na portada de Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. De resto, o mapa de Portugal desenhado por Torga não é substancialmente diferente do então vigente entre os geógrafos: destaca três cidades (Lisboa, Porto e Coimbra), chama as províncias pelo nome próprio (Minho, Doiro, Beira, Estremadura, Ribatejo, Alentejo e Algarve), com exceção da sua mátria, apelidada de Um reino maravilhoso (Trás-os-Montes) e enfatiza o mar com três simbólicos olhares que centra no Litoral, nas Berlengas e em Sagres.

As páginas que dedica à Beira servirão de guia à viagem de campo dum Curso de Verão, que referirei na última pergunta, razão acrescida para esta referência; não esquecemos que a obra Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico é o resultado das lições proferidas por Orlando Ribeiro no Curso de Férias de 1941, organizado pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

A decisão do ponto de vista estritamente geográfico vacilou entre um clássico (Princípios de Geografia Humana) e a obra que representou, para mim, uma profunda rutura (Spatial Organization: The Geographer's View of the World); ambos livros iniciáticos que marcaram a passagem para outro patamar, abrindo novas perspetivas e novos modos de olhar a Geografia.

A opção pelo Spatial Organization não se deve ao seu peso ou densidade, legítimos pelas 600 páginas escritas numa linguagem dura de pendor quantitativo, mas por representar o advento dum tempo novo que ficou associado a uma aprendizagem forçada, quase traumática. Em 1977, após a entrada no mundo do trabalho, tive o privilégio dum primeiro contacto com um mentor, Jorge Gaspar, que impôs este livro como manual obrigatório de geografia aplicada, iniciando um exercício prolongado, exigente e contínuo, de ação-formação-investigação, que se prolongaria por vários anos.

Foi um confronto impactante que culminaria, anos mais tarde, num contacto direto e pessoal com um dos seus autores, Peter Gould, no âmbito duma investigação que coordenaram sobre a difusão de inovações na agricultura, tendo a Cova da Beira como área de estudo. Este encontro foi crucial no meu percurso formativo pela maneira desconcertante como Peter Gould, sem renegar o livro, contrapõe a dinâmica de poliedros para desconstruir os pressupostos que haviam presidido à sua elaboração. Propõe uma abordagem mais qualitativa, em contraponto à conceptualização positivista, ancorada em métodos quantitativos, corrente que tinha adquirido alguma expressão no seio da Geografia, que situava o Spatial Organization como uma das pedras angulares desta perspetiva.

A importância deste livro, para mim, está na dupla “rutura epistemológica” que representou: uma primeira, com a “velha” geografia que trazia da universidade, donde acabara de sair, pela mão de Jorge Gaspar, enquanto com Peter Gold e Jorge Gaspar, o que, uns anos mais tarde, será posto em causa, com outro corte abrupto, quando se faz a critica à “geografia quantitativa”. Foi uma lição de vida, servindo de alerta para a necessidade de estarmos disponíveis para inovar, abertos para encontrar outros caminhos, despertos para procurar novas soluções para velhos e novos problemas.

Aqui chegado, mais do que uma referência ou uma citação, se ainda há alguma recomendação a fazer, destaco a importância que deve merecer a leitura dos clássicos, pois, como alguém já referiu, “só temos o passado à nossa disposição. É com ele que imaginamos o futuro” (Eduardo Lourenço).

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia a dia, ser geógrafo?

As idiossincrasias e os imaginários pessoais que moldaram o gosto pela geografia, comuns aos da minha geração, convivem com um certo modo, porventura romântico, de ver e de estar no mundo: apelo da viagem, fascínio pelos mapas, desejo de aventura e de conhecer outras terras e outras gentes. Esta visão, que se esconde por trás do Principezinho, concebe o geógrafo como um eterno viajante. Ainda recordo as viagens virtuais que fiz, através de regiões e países distantes, proporcionadas pelos folhetos e mapas que pedia, depois do liceu, no balcão da agência oficial de turismo.

A incorporação de novos atributos permitiu a geografia tomar outros rumos, alargou horizontes que lhe alterariam o significado; o destino de ser geógrafo deixou de depender, para muitos, exclusivamente, da única atividade profissional ao seu alcance e a que estavam irremediavelmente condenados. Incluo-me num grupo pioneiro dos que venceram este fatalismo logrando iniciar um percurso alternativo ao que era comum, o da docência.

Uma característica relevante que estrutura comportamentos, atitudes e desempenhos, pessoais e profissionais, constitui a marca que, em minha opinião, é mais impressiva do perfil e melhor define a identidade do geógrafo: sensibilidade apurada para compreender a diversidade, as dinâmicas e os problemas do território. Como, por outro lado, não abdica de situar e se situar no tempo e no espaço, o geógrafo não só acaba por se diferenciar, como está munido de capacitações que facilitam o diálogo e a cooperação com profissionais doutras áreas.

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento? 

Os geógrafos percorreram um longo caminho desde que iniciei as lides no planeamento regional, na segunda metade dos anos 70. Começaram por ser tolerados e depois aceites pelos seus pares, profissionais já instalados neste meio, antes de serem reconhecidos pelos demais interlocutores institucionais com quem tinham de interagir. De facto, a generalidade dos parceiros viam-nos como intrusos que detinham apenas competências para puderem aspirar a professores de liceu. Esta ideia, vigente no meio onde me comecei a movimentar, era comungada pelos destinatários da nossa missão, fundamentalmente presidentes de câmara, que tinham por adquirido que os únicos técnicos aptos para o planeamento eram engenheiros, economistas, quando muito, arquitetos.

Os geógrafos eram encarados como profissionais raros, “espécie” à parte, que exprimiam pontos de vista diferentes, levando-os a posicionarem-se nas margens do sistema, incumbidos de “carregar alguns pianos”, como recolher dados estatísticos, fazer caracterizações, elaborar diagnósticos. No caso que acompanhei de perto, a partir de Comissão de Planeamento da Região Centro, presenciei uma transição profunda e positiva, cujos méritos têm de ser partilhados e os protagonistas mencionados. São devidos créditos ao seu Presidente, Manuel Porto, por ter proporcionado as condições institucionais para incubar uma experiencia pioneira para geógrafos, de que a geografia acabaria por beneficiar. O obreiro e líder desta experiência foi Jorge Gaspar; o núcleo que criou, formou e coordenou, durante mais de uma década, salvo melhor opinião, acabou por ser uma referência, caso único no panorama nacional, pelo trabalho inovador que desenvolveu e pelo número de geógrafos envolvidos. Lembro um episódio, ocorrido em 1980, que retrata bem esse tempo e o processo que estava em marcha. Durante a elaboração do primeiro Plano de Desenvolvimento Regional, trabalho que, à época, foi um desafio inovador, um outro consultor, encarregado da revisão final do texto, perante a dificuldade em chegarem todos os mapas a incluir no trabalho, pelo elevado número e o método artesanal bastante moroso face aos dias de hoje, acabaria por desabafar: estamos a elaborar um programa de desenvolvimento e não a produzir um trabalho de artes plásticas.

O tabuleiro atual não tem fronteiras tão rígidas nem posicionamentos tão estanques, desenrolando-se as interações num quadro mais aberto, com áreas afins e com diferentes parceiros, perante quem os geógrafos ganharam capital de confiança. Mas, embora a geografia sejam menos estigmatizada e os geógrafos olhados com menos preconceito, não devemos esquecer que o modo como os outros nos vêm e com os quais interagimos também depende da maneira como nós próprios nos imaginamos e projetamos.

4 - O que diria a um jovem à entrada de Universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as suas perspetivas na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?

A única sugestão que me parece possível, nos tempos incertos e conturbado que se vivem, com o horizonte sobre o futuro cerrado por denso nevoeiro, é falar-lhes ao coração, que enfrentem o processo formativo com entrega e atitude positiva, que apostem na aquisição de competências na expectativa que tal investimento possa ter retorno e utilidade. Sem perder de vista que os alertas e os conhecimentos adquiridos aumentam a responsabilidade dum maior comprometimento com a nobre causa da justiça territorial.

5 - Queríamos pedir-lhe a escolha de um acontecimento recente, ou um tema atual, podendo ambos ser do âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha e comente-o, tendo em conta a sua perspetiva e análise como geógrafo.

A facilidade com que se montam agendas e a rapidez com que são abandonadas não só banalizam assuntos dramáticos como os ajudam a esfumar na espuma dos dias, a remetê-los para as margens do esquecimento. Assiste-se a tudo isto com a mesma perplexidade e impotência com que se enfrentam as debilidades e incertezas dos tempos que correm. Foi o que ficou patente durante a vaga de incêndios do ano passado, a crise dos emigrantes oriundos da África subsariana ou o drama dos refugiados que as guerras regionais põem a vaguear ao redor do mediterrâneo.

Depois de tudo o que tem sido dito, dos estudos elaborados e dos debates realizados sobre temas tão recorrentes, qualquer comentário soará a supérfluo. Embora não se aplique aos temas referidos, a comoção desencadeada pelos média na opinião pública, sentimento que exploram até à exaustão, nem sempre é correlativo das perdas ou da extensão dos territórios afetados, mas do impacto das imagens que conseguiram. A voracidade das imagens e uma comunicação instantânea que debita noticias sem a devida ponderação acaba por nos submergir e dominar.

Ocorrem-me duas notas para reflexão futura e mais aturada. A primeira é sobre o poder das imagens, como se impõem ditatorialmente, como a geografia se concentrou quase exclusivamente na produção de mapas, abandonando uma antiga, estreita e profícua relação quando reduziu substancialmente o seu uso. Estamos a esquecer-nos que uma maneira eficaz de olvidar lugares é fazê-los mergulhar na escuridão, remetê-los a um silêncio pesado que os apaga da vista; não deixa de ser outra maneira de promover a exclusão territorial. A outra observação relaciona-se com as mudanças geradoras de êxodos, despovoamentos e abandono. Tal tendência coloca um novo desafio a que não podemos ficar alheios: o de transformar esta geografia das ausências numa geografia da esperança.

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?

Não me ocorre um lugar, de imediato, mas espaços amplos que contextualizam e dão o devido enquadramento a certos lugares. Vagueio por múltiplos locais passíveis de serem eleitos que, contudo, se circunscrevem à geografia da Região Centro: umas vezes detenho-me em pontos altos, que permitem grandes planos e horizontes rasgados (apercebo-me que são miradouros); noutras foco-me em lugares que adotei como pequenas pátrias, porque as experiências aí vividas, as memórias que suscitam e o espírito que deles emana lhes conferiu um profundo significado afetivo que o tempo sacralizou e havia de consagrar como locais de culto privado.

A vã tentativa de os geógrafos quererem mostrar “num momento de tempo todos os reinos do mundo” (Lucas 4: 5-8) também os contaminou com bíblica tentação pelos sítios altos. Os miradouros, verdadeiros centros de interpretação da paisagem a céu aberto, sem custo para o erário publico nem para o utilizador, tentam resistir à invasão de infestantes miradouros virtuais, que tentam difundir (Castelo Novo, Pinhel, p. ex.), simulacro tecnológico que, além de por em causa o estado de graça, também ameaça a pura contemplação que ainda é possível nestes ermos encantados.

A procura duma opção levou-me a divagar pelas serras do litoral e do interior: se as serras da Boa Viagem, do Bussaco, de Sicó ou dos Candeeiros abrem janelas sobre o Atlântico e os litorâneos Vales do Rabaçal e do Polje de Minde, nos Maciços Calcários de Sicó e Estremenho, as Serras do Caramulo e da Estrela acolhem miradouros como o da Senhora do Espinheiro, na subida para o Sabugueiro, e o da Varanda dos Carquejais, na descida para a Covilhã. A partir destes pontos de observação podemos estender o olhar por planaltos, vales e montanhas da Beira mais ancestral que se aconchega ao redor da Cordilheira Central.

Esta viagem por sítios altos também passa pelo Miradouro do Vale do Inferno, fronteiro a Coimbra, e pela Portela da Gardunha, ponto culminante dum rosário que define e estrutura a Rede de Miradouros da Beira Interior. Se o do Vale do Inferno permitiu a Alfredo Fernandes Martins esboçar um vibrante retrato de Coimbra, a Portela da Gardunha permite observar a transição entre os vários patamares que, na leitura de Orlando Ribeiro, asseguram a passagem do Portugal do Norte para o Portugal do Sul. Mas, a diversidade paisagística entre o Douro e o Tejo pode ser melhor observada a partir duma linha de cumeadas, paralela à fronteira, que se destacaram devido à tectónica ou erosão diferencial e que constitui uma rota que se desenha entre a Marofa e o Inselberg de Monsanto, com pontos intermédios em Jarmelo, Castelo da Guarda, Malcata e Gardunha, antes de alcançar os alinhamentos quartzíticos de Penha Garcia e das Portas de Rodão.

A recomendação dum lugar depende dos fins pretendidos e dos meios disponíveis ou a envolver para o alcançar. A opção é diferente se o motivo for apenas o de disfrutar a natureza, se estiver em causa um qualquer interesse pedagógico, promover a literacia de observar, ler e interpretar a paisagem, ou indicar um local onde ocorram temas e problemas interessantes para a investigação ou a ação. A opção por um lugar também não é indiferente do percurso pessoal, do lugar onde nos situamos e desenvolvemos as nossas rotinas, nem do momento em que certas experiências foram vivenciadas.

Em abstrato, de maneira descomprometida e sem condicionantes, a indicação dum lugar leva-me a divagar entre Coimbra e Monsanto (Idanha), a Cova da Beira e a Beira Baixa. São lugares espetrais que gostaria de preservar, parados no tempo por terem sido laboratórios de todas as aprendizagens, vividos no fulgor da juventude, quando parecia não existir amanhã. São destinos povoados de lembranças que me transportam a tempos irrepetíveis e ao convívio de companheiros de jornada a que fiquei perenemente ligado por indizíveis laços afetivos. Trazem à memória mestres, colegas, cúmplices de aventuras, viagem inesquecíveis: lembram as visitas orientados por Fernando Rebelo, no jipe conduzido pelo Senhor Ferreira, as caminhadas em Sicó com o António Gama e o Lúcio, a primeira tentativa, frustrada e frustrante, de visitar Monsanto, em 1975, quando, já na Relva, em viagem de estudo orientada por Alfredo Fernandes Martins, o timoneiro decide abortar a visita sentenciando: “vamos embora porque não viemos cá fazer turismo”! A Cova da Beira é, neste imaginário, um caso à parte, um destino que se tornou mítico por conjugar descoberta com uma dimensão lúdica que nunca sucumbiu perante uma empolgante investigação academicamente exigente, vivida nos limites das possibilidades: os inquéritos aos agricultores, de aldeia a aldeia, de dia, à noite e fins de semana, as conversas com Fernando Paulouro, os jantares na Hermínia, os briefings tutelados por Jorge Gaspar, a Pensão Marques e as inesquecíveis longas noites beirãs.

Sem perder de vista este pano de fundo, nem a consciência que nunca se volta ao lugar onde fomos felizes, a resolução da equação proposta passa por dar crédito ao conselho avisado de Eduardo Lourenço quando afirmou que “mais importante que o destino é a viagem”. Por tudo isto, a partir de Coimbra, lugar onde me situo, recomendo Vilar Formoso, lugar central do Centro de Estudos Ibéricos (CEI) que une Coimbra e Salamanca e fronteira, na proximidade de S. Pedro de Rio Seco, lugar onde nasceu Eduardo Lourenço, o que lhe confere uma acrescida dimensão simbólica. Coimbra, Guarda, Vilar Formoso e Salamanca, ao estruturar uma rota inspirada em Eduardo Lourenço e Miguel de Unamuno que se faz no curso de 2018 do CEI, organizam uma viagem que atravessa territórios díspares que suscitam várias camadas de leitura: além da que emana do pensamento destes patronos e outros escritores daqui oriundos, permitem abordar inúmeros temas de natureza geográfica. Vilar Formoso é, pois, um lugar de excelência para apresentar e debater temas de índole material e intangível, desde a evolução do lugar e o significado da fronteira, o esbatimento e o regresso das fronteiras, a ideologia que ficou plasmada, quer em alguns edifícios públicos como na iconografia que ornamenta a estação de caminho-de-ferro, celebrados no Museu “Vilar Formoso Fronteira da Paz”, dedicado à passagem dos refugiados por Portugal, durante a II Grande Guerra.