Miguel Padeiro

Miguel Padeiro 

Miguel Padeiro, Licenciado em Geografia pela Universidade Paris I Panthéon-Sorbonne, Doutorado em Urbanismo e Ordenamento do Espaço pela Universidade Paris Est Marne la Vallée. As suas áreas de investigação são o planeamento dos usos do solo, a mobilidade e acessibilidade aos serviços, e o envelhecimento da população. É actualmente Investigador Auxiliar do IGOT, Universidade de Lisboa.

 

1 - Comente um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.

São muitas as obras que marcaram o meu percurso como geógrafo. Nem todas são livros escritos por geógrafos – a geografia alimenta-se de várias ciências conexas. Uma pré-selecção incluiria certamente (não necessariamente nesta ordem) Cities of Tomorrow (Sir Peter Hall), The Global City (Saskia Sassen) e Mobilities (John Urry), The City in History (Lewis Mumford). Tendo estudado em França, não poderia deixar de lado O direito à cidade (Henri Lefebvre), Metapolis: acerca do futuro da cidade (François Ascher), La légitimité démocratique, entretanto traduzido para o inglês, Democratic Legitimacy (Pierre Rosanvallon), A dinâmica do capitalismo (Fernand Braudel). Todas estas obras apresentam uma profunda reflexão acerca das evoluções políticas, económicas e sociais subjacentes às dinâmicas urbanas. Tenho um especial carinho por uma obra que não chegou a ser traduzida para português (muito embora o merecesse!) e foi em tempos a minha primeira leitura como estudante de geografia: L’espace humain – Une invitation à la géographie (Jean-Pierre Allix). Por fim, uma obra de ficção teria de ser incluída: O meu Nome é Vermelho (Orhan Pamuk), que transporta o leitor para o Império Otomano nos finais do século XVI e constitui uma reflexão magistral sobre as relações entre Oriente e Ocidente, com uma forte dimensão política mas também, obviamente, geográfica.

Todavia, uma vez que me pedem para escolher apenas um, irei evocar a obra de Jared Diamond, Armas, Germes e Aço: Os Destinos das Sociedades Humanas. Porquê esta escolha? Talvez por ser um pouco polémico e por não recear uma certa dose de determinismo geográfico – impondo-se sempre muita cautela nesta matéria – ou talvez porque aborda de forma muito sintética, privilegiando o tempo longo, uma das questões mais universais e cruciais da geografia humana: afinal de contas, porque a Europa dominou o mundo e não o contrário? Partindo desta questão simples, o autor mobiliza um largo conjunto de ciências (genética, biologia molecular, linguística, arqueologia, para citar apenas estas) e mostra que os acasos da distribuição geográfica dos recursos (plantas, animais), a adaptação ao meio ambiente e a consequente produção alimentar forneceram as primeiras bases de uma diferenciação que iria possibilitar um conjunto de inovações no continente europeu. A maior adaptação face ao desenvolvimento de germes provenientes de animais domesticados iria mais tarde dar uma vantagem decisiva aos Europeus. Longe de descrever uma relação directa de causa-efeito, esta obra de Jared Diamond enfatiza o papel fundamental do meio ambiente na constituição das sociedades, nas relações que desenvolvem e nas diferenciações que se produzem entre elas.

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia a dia, ser geógrafo?

A curiosidade em relação às paisagens, à sua formação e dinâmica actual, a diversidade de temas abrangidos – que pode confundir o não-geógrafo – e a dimensão integradora da reflexão são sem dúvida três elementos marcantes que definem o geógrafo. Estas três dimensões possibilitam a concretização de ligações com outras disciplinas e a importação de conceitos. Acima de tudo, têm-me confirmado, ao longo dos anos, a importância de realçar a variabilidade espacial de qualquer fenómeno.

De maneira mais anedótica, esses elementos reflectem-se nos livros que se encontram actualmente na minha mesa de cabeceira, pelo mero prazer da leitura geográfica: a geomorfologia das paisagens graníticas (Granite Landscapes, Piotr Migon), os contentores (The Box, Marc Levinson), os continentes como construção social e sobretudo política (L’invention des continents, Christian Grataloup).

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento? 

Durante muito tempo, a geografia sofreu de uma imagem de disciplina essencialmente descritiva e marcada por um défice, simultaneamente, de conceptualização e de robustez metodológica. Uma parte do frágil reconhecimento de que a geografia beneficiava devia-se provavelmente a uma postura de convergência ou de abertura, de porosidade, para com as ciências conexas. Mas esta era apenas o lado bom de uma ciência de resto dispersa, que se alimentava dos conceitos produzidos por outras.

Todavia, nos últimos anos tornou-se evidente o reconhecimento de outras disciplinas e profissões, através da espacialização das abordagens. Ao longo das últimas décadas, os desenvolvimentos da Nova Economia Geográfica, da justiça espacial e até do conceito de sustentabilidade já prenunciavam uma mudança neste sentido. Esta mudança foi-se intensificando. É hoje bastante perceptível, tanto nos trabalhos académicos como no debate público, a importância atribuída a fenómenos espaciais, à localização e às interacções entre a sociedade e os territórios. O ambiente construído, os atributos espaciais, os sistemas de localizações e o ordenamento do território são mobilizados em assuntos tão diversos como a qualidade de vida, os incêndios rurais, as condições de saúde, ou ainda as desigualdades sociais.

Por outro lado, entrámos na era do data mining e da modelação estatística, dos big e dos open data, das aplicações, dos drones, da realidade aumentada. Há quem receie – com alguma razão – uma certa deriva tecnológica, uma diminuição das capacidades de conceptualização nas ciências sociais em geral, de distanciamento em relação ao ruído do quotidiano e ao império dos dados. A geografia tende a tornar-se uma vantagem, a sua imagem e aceitação como “disciplina parceira” de outras disciplinas tem beneficiado dos progressos da análise espacial e das múltiplas possibilidades ofertas pela georreferenciação dos dados ou por métodos de visualização cartográfica mais atractivos para os não-geógrafos. Um reconhecimento que será completo se os geógrafos souberem apropriar-se estas metodologias.

4 - O que diria a um jovem à entrada de Universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as suas perspectivas na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspectivas, responsabilidades e oportunidades?

Ao jovem, diria que escolheu uma via que o fará crescer, olhar o mundo de uma forma diferente, mais sistémica e menos enraizada numa única perspectiva disciplinar monocromática. A diversidade daquilo que se designa por geografia é tão grande que por vezes irá perguntar-se se não se está a dispersar em demasia. Dir-lhe-ia, sobretudo, que entrou num universo riquíssimo e com grandes perspectivas profissionais, tendo em conta a importância acrescida dos métodos da análise espacial e dos sistemas de informação geográfica (SIG).

Dar-lhe-ia também três recomendações muito concretas para se afirmar não só no campo da geografia como no contacto de outras disciplinas, com as quais irá manter simultaneamente relações de alguma concorrência e de complementaridade: (i) adquirir hábitos de leitura, como complemento às aulas, ler a imprensa internacional e os grandes autores – entre muitas outras obras, aquelas que citei no início desta entrevista; (ii) praticar e aprofundar o domínio da língua inglesa, sem a qual terá no futuro as maiores dificuldades em progredir; (iii) ir ao encontro dos SIG, da análise quantitativa, da programação, do data mining, das representações gráficas, não numa postura de aceitação cega da inovação tecnológica, mas com consciência da finalidade de todo o trabalho e reflexão sobre as sociedades humanas e o seu meio. Estas recomendações reflectem um pouco a minha inquietação perante as capacidades presentes e futuras dos estudantes. Significam também que o jovem terá de criar as suas próprias oportunidades, as suas aprendizagens.

Ao geógrafo mais experiente, recordaria que a geografia tem um papel fundamental: tem de produzir conhecimento, analisar e compreender os processos de decisão, as dinâmicas espaciais, sociais, económicas, políticas, contribuir para uma melhor gestão dos recursos, um melhor equilíbrio ambiental, social, económico, e no fundo para melhores políticas públicas e de ordenamento do território, contrariando evoluções espontâneas indesejáveis e associadas ao somatório de iniciativas avulsas. O geógrafo experiente já sabe disto tudo. O que frequentemente esquece é que tem de ganhar espaço mediático. Falei anteriormente do maior reconhecimento da geografia que a espacialização das reflexões e o sucesso de métodos de análise espacial têm permitido. Curiosamente, este reconhecimento apresenta um risco que é o da relativa “confiscação” das nossas capacidades por especialistas de outras disciplinas. Temos perdido (ou estamos em risco de perder) capacidade em valorizar-nos face a outras disciplinas que têm estado a ganhar algum terreno, inclusive em competências que habitualmente nos eram próprias, por exemplo os SIG e métodos em geral (analistas de dados), o planeamento urbano em que cada vez mais intervêm profissões mais sectorizadas, com o risco de se perder a dimensão territorial – têm-se multiplicado os projectos urbanos “de autor”, a várias escalas, sem qualquer preocupação de ligação com o espaço envolvente e criando as condições para uma fragmentação intensa, espacial e social.

5 - Queríamos pedir-lhe a escolha de um acontecimento recente, ou um tema atual, podendo ambos ser do âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha e comente-o, tendo em conta a sua perspetiva e análise como geógrafo.

De entre os muitos temas e acontecimentos que me vêm à cabeça, há um que tem merecido a minha atenção: o envelhecimento da população. Os progressos da medicina, o crescimento económico, a adopção de modos de vida mais saudáveis, permitiram um aumento da esperança de vida espectacular. Ganhámos 30 anos em menos de um século à escala mundial: é mais do que em dezenas de milhares de anos. Esta proeza traz contudo um conjunto de desafios. Na Europa, o índice de dependência de idosos ((65+/(15-64)) deverá passar de 27,8 em 2013 para 32,1% em 2020, atingindo 46,1% em 2040. Portugal é hoje um país particularmente envelhecido: tem o 4º índice de envelhecimento da União Europeia, e as áreas rurais deixaram de ser as únicas áreas envelhecidas, tendo-se registado um forte aumento dos índices de envelhecimento nas principais áreas urbanas do país.

É provável que as nossas sociedades apressadas não tenham ainda incorporado todas as dimensões nem todas as consequências desta evolução. Ao contrário do que muitos pensam, as pessoas idosas ainda têm projectos, aspirações, desejo de socializar e aprender. Mas também são vulneráveis a uma série de acontecimentos, entre os quais o progressiva incapacitação física, cognitiva, frequentemente financeiras, com consequências danosas e irreversíveis: a interrupção da condução está por exemplo associada a sintomas depressivos, o sentimento de solidão por falta de capacidade em deslocar-se agrava a tensão, o acesso a serviços fundamentais como as farmácias, os centros de saúde, a alimentação, o recreio, fica dificultado.

Estaremos preparados para isto? Estarão os nossos territórios adaptados para o envelhecer-bem? A globalização alterou o contexto da urbanização, acelerou a vida urbana, complexificou as agendas pessoais e as ligações pessoais, intensificou o recurso aos TIC e ao automóvel, aumentou a selectividade das áreas centrais. Envelhecer num ambiente urbano tornou-se desde logo um problema científico e político, porque a definição algo normativa do envelhecimento pouco diz das reais necessidades e aspirações da população idosa, incita à actividade (o “envelhecimento activo”) mas sem lhes fornecer os meios necessários para a realização dos seus desejos, sem reconhecer a heterogeneidade da população idosa, e sem incluí-las nos processos de decisão. O que obviamente pode propiciar mecanismos de exclusão.

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?

O nosso país apresenta, numa reduzida superfície, uma enorme riqueza paisagística, uma profusão de formas antrópicas e naturais, um conjunto de contrastes visuais, sociais, espaciais que tornam qualquer escolha difícil. Na impossibilidade de eleger um único local com critérios objectivos, irei assumir uma escolha do coração: a minha região do Baixo-Vouga Lagunar ou, para usar a designação mais comum (embora geograficamente incorrecta), da Ria de Aveiro.

A região constitui um dos grandes acidentes geomorfológicos do litoral português. Não é apenas o resultado do crescimento da restinga que liga o Furadouro a São Jacinto, nem da sedimentação do material trazido pelos rios Vouga e Antuã. É também o fruto da acção humana, com a fixação da barra no século XIX a acabar com as incertezas que a dinâmica litoral proporcionava até então. Uma saída de campo em torno da ria de Aveiro oferece ao geógrafo várias oportunidades para uma profunda reflexão acerca das relações homem/meio ambiente, e para o conhecimento geográfico e das políticas territoriais: a ligação das sociedades ao meio aquático (tradicionalmente, as salinas, a arte xávega e a apanha do moliço, mais recentemente a emergência da actividade turística ligada aos moliceiros e à biodiversidade), os modos de povoamento (a chamada “dispersão aglomerada” e as aldeias-ruas da planície litoral), a importância e o futuro do terminal portuário de Aveiro, a governança e as polícias ambientais recentes (Bioria, CIM Ria de Aveiro).