Jorge Umbelino

Jorge UMBELINO

Professor Coordenador Principal e Presidente do Conselho Técnico-Científico da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril (ESHTE). Geógrafo (1982, FLUL/UL), Mestre em Planeamento Regional e Urbano (1987, UTL), Doutor e Agregado em Geografia e Planeamento Territorial (1997, 2012, UNL). Investigador Integrado do Centro de Estudos Geográficos (ULisboa) e membro do CIDI (ESHTE).

Tem investigado e publicado sobre diversos temas no âmbito do Planeamento Territorial e Turístico, com destaque para o Turismo Acessível e Inclusivo. Fora da Academia, desempenhou, entre outras funções, a de Subdiretor-geral do Turismo, Presidente do Instituto de Formação Turística e Vogal do Conselho Diretivo do Turismo de Portugal.

 

1 - Comente um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.

Recomendo um livro publicado pela D. Quixote, há já dez anos, mas que reli este Verão: "Breve História do Futuro", de Jacques Attalli.

Trata-se de uma reflexão sobre o curso da História e da Humanidade, que nos projeta para um futuro previsível, mas inquietante. Como é que nos vamos organizar num tempo em que os poderes e os equilíbrios de forças se transformam a cada momento? Como é que vamos conviver com uma evolução tecnológica que criámos para nosso benefício mas que não raro nos perturba?

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia a dia, ser geógrafo?

Já há muitos anos que o meu percurso profissional, seja nos períodos em que estive ligado ao ensino, como agora acontece, seja naqueles em que exerci outras funções públicas, está ligado ao turismo. Hoje, ainda mais do que há 20 ou 30 anos, existe uma clara perceção de que o consumo turístico decorre de uma experiência holística que nos leva a integrar o território, a paisagem, a cultura e a vida em sociedade com os designados produtos turísticos que em cada lugar possam estar disponíveis. Nestes termos, o trabalho da oferta turística deve centrar-se na criação de condições para que, a partir deste amplo conjunto de variáveis, as experiências dos consumidores-turistas sejam gratificantes e possam gerar emoções e memórias positivas. Ora, sempre entendi que uma das mais valiosas características da minha formação enquanto geógrafo é, precisamente, o convite à integração do conhecimento, a uma capacidade analítica entrecruzada... Isto, claro está, sem prejuízo de as competências específicas dos geógrafos ao nível do planeamento territorial me serem de grande valia, tanto mais que o turismo também é, reconhecidamente, um fenómeno marcadamente territorial. É no território que se encontram os fundamentos e os meios para a viagem e para a estada turística.

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento? 

Depende do exercício, em cada momento... No caso do ensino, a aproximação entre a formação de origem e a prática profissional é quase sempre mais óbvia, mas já noutras funções essa dimensão pode passar mais incógnita. A formação académica é um meio para nos tornarmos mais competentes, e não creio que a condição de ser geógrafo me tenha, genericamente, prejudicado nesse objetivo, antes pelo contrário. O que tenho por garantido é que, ao longo da vida, nos temos de ir aperfeiçoando continuadamente, seja aprofundando as bases da nossa formação inicial, seja procurando os complementos que, em cada momento, nos pareçam mais necessários ou oportunos.

4 - O que diria a um jovem à entrada da Universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as suas perspetivas na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?

Na sociedade atual, e provavelmente no futuro ainda mais, os percursos de vida, tanto ao nível pessoal como profissional, tendem para um forte dinamismo. Quem vive neste tempo tem de se preparar para um caminho multifacetado e por vezes plurifuncional. A aberturada formação geográfica, a começar pela clássica partição entre Geografia Física e Geografia Humana, aparentemente muito alternativas mas magistralmente sintetizadas por Orlando Ribeiro e outros Mestres, até favorece e prepara para esse dinamismo... Ocorre-me, também, partilhar um ensinamento que recebi de um antigo Professor na Universidade de Lisboa: "Quando estiveres quase a concluir um texto, para além dos objetivos que, em cada momento, prossigas, pergunta-te sempre acerca i) da utilidade acrescida do que fizeste e ii) da particularidade de seres geógrafo no teu trabalho... Se for caso disso, corrige até que as tuas dúvidas em relação a estas duas perguntas fiquem satisfeitas".

5 - Queríamos pedir-lhe a escolha de um acontecimento recente, ou um tema atual, podendo ambos ser do âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha e comente-o, tendo em conta a sua perspetiva e análise como geógrafo.

Seja-me permitida uma escolha manifestamente afetada pelo meu percurso académico e profissional: o recente reconhecimento público da importância da oferta turística no nosso País. Na verdade, depois de durante muitos anos ter sido vítima de injustificada ignorância ou arrogante subalternização, a dimensão económica, social e cultural da oferta turística portuguesa impôs-se. A evidência de um crescimento setorial acelerado, que começou por se manifestar em forte contraciclo com a recessão que afetou a economia internacional e nacional para depois, em tempos mais próximos, alavancar o próprio crescimento global da economia portuguesa, tornou impossível não observar o óbvio. O voto que expresso é que não mais se confunda a perceção de um caráter supérfluo nos atos individuais de consumo turístico – premissa essa que, ela própria, cada vez mais vai carecendo de confirmação... – com a consequência do somatório de milhões deles. O consumo turístico ainda vai crescer muito no futuro e Portugal tem todas as condições para tirar proveito dessa oportunidade.

6 - Que lugar recomendaria para uma saída de campo em Portugal? Porquê?

Se fosse uma saída para eu próprio acompanhar, recomendaria a minha região de origem – o Alto Alentejo, a partir de Portalegre. Não por entender que é o espaço objetivamente mais belo ou cheio das mais ricas histórias ou estórias para serem contadas, mas por ser a região na qual teria as melhores possibilidades de acrescentar uma carga emocional positiva. Numa saída de campo em Geografia, como na viagem turística, a avaliação dos resultados finais pelos participantes / viajantes resulta de uma apreciação pessoal e subjetiva, na qual a capacidade de comunicar com eficácia não raro se sobrepõe à pretensa valia das observações e das memórias invocadas.