Jorge Gaspar

JORGE GASPAR
30/10/2016

Jorge Gaspar: Lisboa, 1942. Licenciado (1965), doutor (1972) e agregado (1973) pela Universidade de Lisboa , pós graduado pela Universidade Lund (1968), Suécia. Professor Emérito, IGOT-UL. Foi Assistente e Prof. Aux. da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, Professor Catedrático Convidado do Instituto Superior Técnico e das Universidades de Umeå e de Paris X. Foi Vice-Reitor da UL, Presidente do Conselho Diretivo da Faculdade de Letras, Diretor do Departamento de Geografia da mesma Faculdade e do CEG-UL. Coordenou e participou em projetos de investigação, nacionais e internacionais. Sócio fundador das associações Estudos Gerais de Alvito e Inter.Meada- residências artísticas.

Em 1986 fundou o Centro de Estudos e Desenvolvimento Regional e Urbano Lda, onde colabora. Coordenador da proposta técnica do Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território. Publicou uma vintena de livros e mais de duas centenas e meia de artigos e opúsculos. Sócio efetivo da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Europaea. Doutor HC pelas Universidades de León, Genève e Évora. Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Prémio Universidade de Lisboa. Prémio Internacional Geocrítica.

Publicações recentes: 2016: “Futuro, cidades e território” in Finisterra, LI, 101, pp. 5-24. 2015: “Sete apontamentos para um atlas de memórias e vivências” in Urteaga, L. & Casals, V. (eds.) Horacio Capel, geógrafo, Barcelona, pp.545-555; “A centralidade da geografia: dos conceitos às práticas” in Geousp – Espaço e Tempo (Online), vol. 19, nº 2, pp. 183-195. 2014: E-Coesão (com Sérgio Barroso), Estudos Cultura 2020, nº 9, Princípia Ed., 176 p.

1- Comentário a um livro que o marcou ou cuja leitura recomende 

É muito difícil, senão impossível, identificar o livro que mais nos marcou e, por qualquer razão, recomendar a sua leitura. Foram muitas as obras que conscientemente contribuíram para a minha formação. Se quiser ser rigoroso, o primeiro livro que me marcou e que muito contribuiu para a construção da pessoa que sou, foi a Cartilha Maternal de João de Deus; por ela aprendi a ler, aos cinco anos de idade, com a ajuda do meu Pai.

Como nesse tempo ainda não tinha chegado a televisão, a Cartilha tinha uma grande força lúdica, que complementava os contos tradicionais e as narrativas científicas da aprendizagem da vida: as plantas, os animais, a leitura dos mapas – das ruas, das estradas e das estrelas e a prevalência dos movimentos do sol e da lua e sua influência na vida dos humanos mas também na dos animais e das plantas.

Ainda hoje sei de cor várias páginas da Cartilha e sou capaz de recitar a poesia final, o Hino de Amor: “andava um dia, em pequenino, nos arredores da Nazaré…” A memória estava na base do método de aprendizagem e foi bom ouvir, há poucos dias, o Professor Jorge Calado, na sua oração na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, fazer o elogio da memória e da necessidade de a exercitar.

As leituras marcantes só viriam no liceu, por via do ensino, ou em paralelo. No primeiro caso, lembro-me do fascínio pelas obras-mestras de Júlio Dinis, que efabulavam um ambiente que eu conhecia tão bem graças às origens geográficas dos meus pais – a Beira Litoral e o Minho. Ainda hoje me ajudam a compreender esse mundo de paroquianos e fregueses, de párocos e fidalgos. Paralelamente, no quarto ano, a leitura do Drama de João Barois, de Roger Martin du Gard, reposicionou-me como pessoa e, ao mesmo tempo, a afastou-me da JEC e da Conferência de São Vicente de Paulo, despertando-me para as críticas ao regime e para, logo no ano seguinte, participar da efervescência que a campanha do General Humberto Delgado provocou por todo o País.

No 6º ano do liceu foi a descoberta de Albert Camus, cuja obra moldaria a minha personalidade, mormente O Estrangeiro, que me preparou para a vida e para o Grand Tour: a Europa, os europeus e a sua cultura.

Mas o verdadeiro livro da minha vida ainda estava para ser descoberto e assimilado: Dom Quijote de La Mancha de Manuel Cervantes. Vivi com ele, na monumental edição de Francisco Rodriquez Marín, as noites do meu primeiro inverno na Suécia. Com ele ri e chorei, com ele aprendi muito sobre as grandes questões e também sobre as ínfimas trivialidades da vida. Quando cheguei ao fim do décimo volume e das inúmeras e fascinantes notas, voltei ao princípio do primeiro volume. É também, sem dúvida, outra das minhas recomendações.

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?

Sinto a condição de geógrafo como uma componente muito forte da minha personalidade e da minha identidade. Assim, tudo o que faço nas dimensões social, cultural, política e económica é profundamente influenciado por essa condição. As minhas atitudes ao longo da vida e no meu quotidiano têm sido marcadas por uma visão geográfica do mundo e das coisas o que significa tudo começar pela localização absoluta (latitude e longitude), para prosseguir com a sua integração num espaço relativo e a partir daí, a abordagem…

Por isso, quando conheço alguém procuro saber o mais rapidamente possível de onde é e por onde andou, antes mesmo de me debruçar sobre a pessoa em questão. É talvez o que se pode chamar uma deformação profissional. Por isso também, quando faço compras, do vestuário à alimentação, ou de natureza diversa, acabo por empreender verdadeiras visitas de estudo. De facto, uma boa parte da informação de matriz geográfica que vou incorporando na construção da minha visão do Mundo é obtida em supermercados… parafraseando Fernando Pessoa, quando convoca Cesário Verde para afirmar quanta poesia encerra a contabilidade comercial, eu direi que as prateleiras de um hipermercado encerram volumes e volumes de várias geografias, pensemos na peixaria, no talho, nas hortaliças, nos cereais, nos queijos, nos vinhos, o conjunto dos produtos BIO… este é toda uma nova geografia. Há uns anos, a jornalista Anabela Saint Maurice quis entrevistar-me e sugeriu que lhe “mostrasse” a paisagem de Lisboa; em alternativa, sugeri-lhe Alvito, no Alentejo, onde a nossa visita começou pelo mercado porque o que comemos participa da paisagem. Ali não encontrámos produtos locais e uma boa parte do exposto vinha de Espanha… quando saímos para fora da vila, a paisagem era testemunho do que víramos no mercado - pousio e abandono.

Tratei com vários geógrafos, um pouco por todo o Mundo, que para singrar na vida ou quando já tinham singrado, escondiam a sua formação universitária de base ou não se apresentavam como geógrafos. Alguns construíam-se numa “dupla personalidade”: consoante as circunstâncias, vestiam ou despiam o fato de geógrafo.

Além do orgulho em ter obtido uma boa licenciatura em Geografia, tive a sorte de logo após a defesa da dissertação de Licenciatura ter uma bolsa de estudo da Fundação Calouste Gulbenkian, através do CEG-UL, de julho a setembro, e em outubro começar a trabalhar como 2º Assistente no Curso de Arquitetura da Escola Superior de Belas Artes da Universidade de Lisboa, a ensinar Geografia Física e Geografia Humana, com total liberdade e assento no Conselho Escolar. No ano seguinte rumei a Lund, na Suécia, onde fui muito bem aceite e integrado como geógrafo de Portugal. Neste percurso contei com o apoio de Orlando Ribeiro e de Ilídio do Amaral.

Em 1968 regressei à ESBAL e a minha afirmação como geógrafo processou-se na Escola e fora dela, em meios não “geográficos”. Ainda nesse ano iniciei a minha colaboração no Atelier Conceição Silva, por proposta do Tomás Taveira, meu aluno e colaborador daquela empresa. Foram tempos de aprendizagem intensa, fizemos então a primeira aplicação de SIG em Portugal com o apoio da IBM, e de afirmação da capacidade dos geógrafos: em pouco tempo, o Atelier Conceição Silva contratava mais geógrafos, por minha proposta: o José Carlos Pinto, o Luís Corte Real, a Ana Marin, a Teresa Craveiro… Ao mesmo tempo adquiri a minha “alforria” e participei em equipas coordenadas por arquitetos como Sebastião Formosinho Sanches, Raul Hestnes Ferreira, Manuel Vicente, Guilherme Câncio Martins. Em 1971 fui convidado para consultor do Gabinete da Área de Sines e aí organizei uma equipa de geógrafos, a colaborarem com arquitetos, engenheiros, economistas, engenheiros geógrafos e matemáticos. E é neste contexto que um jovem matemático se vai doutorar em Leeds sob a orientação de um geógrafo, Allan Wilson.

Quando me doutorei em Geografia Humana, em 1972, já adquirira, pela prática e pelo intenso trabalho em equipas multidisciplinares, o estatuto de geógrafo profissional, respondendo assim aos incentivos de alguns professores da Licenciatura, como João Evangelista e sobretudo José Correia da Cunha, que muito se esforçava para nos orientar para a Geografia Aplicada.

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua actividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?

Em boa medida o conteúdo da resposta anterior já corresponde ao que poderá tratar esta questão. Considerando que a pergunta é objetivamente pessoal, vou expor de forma sucinta um facto que creio encerrar uma resposta à questão.

Há 30 anos, completados neste mês de outubro, com a Ana Marin e o Fernando Correia fundámos uma empresa, CEDRU, Lda, que apresenta um percurso interessante no panorama das empresas de consultadoria em Portugal: embora recorrendo a parcerias e subcontratações de diversos domínios e vários enquadramentos institucionais, em Portugal e no estrangeiro, estabilizou num quadro técnico de uma dezena de efetivos, todos com formação de base em Geografia.

Os seus quadros chefes de projeto, com diversificadas pós-graduações, têm evidenciado desempenhos muito interessantes na coordenação de equipas multidisciplinares em domínios como o ordenamento do território, a avaliação de projetos e programas de desenvolvimento e ordenamento territorial, renovação e requalificação urbana, valorização e promoção do património natural e cultural, planeamento estratégico e urbanismo.

O mercado, em Portugal e no estrangeiro, tem reconhecido a qualidade do trabalho desenvolvido através da concessão de prémios e de galardões, mas sobretudo através de encomendas, pelo que foi possível, ao cabo de 30 anos de atividade, ter tido sempre resultados operativos anuais positivos.

É devido ao seu bom desempenho que o CEDRU tem conseguido a colaboração de excelentes consultores de variados domínios técnicos e científicos, bem como as parcerias com empresas e instituições públicas, mormente universitárias. Assim, a experiência desta empresa, identificada com Geografia e geógrafos, é um bom exemplo do reconhecimento da importância social da Geografia e do trabalho dos geógrafos.

4 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspectivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?

Em primeiro lugar, sublinharia a importância da Geografia na formação do indivíduo, como um modo de estar na vida. Do mesmo passo alertava para a necessidade de fazer um exame de consciência, no sentido de avaliar as respetivas apetências e aptidões na construção da vocação e do gosto pela Geografia. Falava-lhe ainda da necessidade de conhecer o Mundo, do local ao global, e através de diferentes meios e aproximações, das viagens às leituras. Fazia-lhe ver que na formação do geógrafo é fundamental aprender nas margens do que se define como Geografia, tanto no âmbito da disciplina como nas ferramentas mais consensuais.

Daí a importância da literatura e uma ênfase especial na poesia, que frequentemente nos oferece visões a um tempo penetrantes e de enquadramentos de situações que têm uma dimensão geográfica. Sugeria autores: voltar a Eça e ler Carlos de Oliveira, quer na prosa (Casa na Duna, Finisterra) quer na poesia (Micropaisagem…). Se possível, percorrer o Mundo com os grandes escritores de cada País.

Procuraria despertar o jovem para a riqueza do cinema, em múltiplas frentes, todas com pertinência geográfica, na certeza que um filme é sempre um bocado do Mundo, um fragmento de tempo e espaço.

Não esqueceria a importância de várias disciplinas “clássicas” na formação do geógrafo, enfatizando a obrigatoriedade da História e das Ciências da Natureza e da Vida, valorizando outros saberes - das Ciências Sociais à Matemática – que deveriam aparecer ao longo do curso, integrando o currículo que o aluno for desenhando.

Por último, incentivaria para as grandes faculdades e virtualidades da internet e da necessidade de aprender a selecionar, a adequar a navegação a objetivos concretos, de indagação geográfica, de procura de novos mundos, de janelas para os futuros.

5 - Queríamos pedir-lhe que escolha um acontecimento recente, ou um tema actual, podendo ambos ser de âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha, e comente-o, tendo em conta em particular a sua perspectiva e análise como geógrafo.

Chegados à “pergunta de desenvolvimento”, proponho um tema atual e eterno: o olival, a oliveira e o azeite. Este é um domínio de grande interesse para a Geografia e para o Ordenamento do Território em Portugal. Mereceria talvez uma “entrada” no Programa Nacional de Política de Ordenamento do Território.

São várias as abordagens possíveis: pelo lado da alimentação, pela história da ocupação e ordenamento do território, pela identidade cultural, pela economia agrária e territorial, pelas análises da sustentabilidade e da biodiversidade, entre outras. Um ponto de partida dentro da Geografia pode ser o ensaio de Orlando Ribeiro sobre o Significado ecológico, expansão e declínio da oliveira em Portugal (1979).

O aumento expressivo do consumo do azeite per capita é um dos raros indicadores que apontam para a melhoria da dieta alimentar dos portugueses nas duas últimas décadas. Esse aumento foi acompanhado pelo incremento da produção e o alargamento da superfície dedicada ao olival. Esta base interna permitiu o fortalecimento das empresas de comercialização que promoveram a sua base exportadora. A maior empresa de óleos alimentares concentra a sua atividade no azeite e investe no olival, em Portugal, Espanha, Norte de África e América do Sul.

A este processo de valorização do azeite correspondem grandes alterações nas técnicas agrárias, desde o aparecimento de novos cultivares, à sua intensificação, com o avanço e a quase exclusividade dos olivais intensivos e hiperintensivos, possibilitados pelo recurso à rega gota a gota, à mecanização dos tratamentos e da apanha, bem como à modernização dos processos de fabrico de azeite.

Os novos olivais levantam, entretanto, várias questões de âmbito natural e social. Por um lado, desconhece-se as consequências que os novos híbridos e as técnicas da hiperintensidade vão ter na composição e na textura dos solos, não existindo mesmo consenso sobre a vida média das plantações. Por outro lado, as novas paisagens do olival apresentam-se despidas de gente, com poucas articulações com as comunidades locais, consequência das práticas do Lean farming.

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?

Durante cerca de 30 anos a minha excursão preferida para os alunos do 1º ano era a introdução aos portos fluviais do Tejo, pretexto e enquadramento para fazer referência a uns quantos temas fundamentais para a formação do geógrafo: a importância dos grandes rios na organização do espaço e, no caso vertente, na formação de Portugal; a lógica da ocupação do território e da sua apropriação a diferentes escalas; a evolução dos meios de transporte em Portugal nos séculos XIX e XX – do barco para o caminho-de-ferro e deste para a rodovia; a apropriação do território pelas diferentes classes sociais, do minifúndio ao latifúndio, das herdades aos foros, do Alqueidão ao maior latifúndio do País; dos ciclos migratórios para as fainas fluviais e agrícolas - ílhavos, ovarinos, murtoseiros, avieiros, de um lado, gaibéus, caramelos e ratinhos, do outro; enfim, as sucessivas etapas da industrialização, de Lisboa a Abrantes, das saboarias e carvoarias à cortiça, dos têxteis ao papel, das madeiras às indústrias alimentares, das metalomecânicas às químicas… e, na sombra da grande cidade, uma ampla variedade orientada para o mercado, beneficiando, pelo menos no início, do transporte fluvial; por último, o turismo, que não tem acompanhado o potencial de visitação e de experiências que o percurso do Tejo oferece, como muito bem o mostraram num valioso estudo e plano, os geógrafos José Manuel Simões e Mário Vale. 

Mas todo o País oferece múltiplas oportunidades para a demonstração da Geografia, em excursões de dimensão variável. Claro está que a mais completa será mesmo uma volta a Portugal, na companhia dos grandes mestres da aprendizagem dos territórios: Alberto Sampaio, Virgílio Taborda, Amorim Girão, Alfredo Fernandes Martins, Orlando Ribeiro, Mariano Feio, assessorados e atualizados pelas gerações que se lhes seguiram na aventura da Geografia e que têm aprofundado o conhecimento de Portugal, de Tourém à Ria Formosa, da Gândara à Serra de São Mamede. Tive a dita de fazer uma excursão algo semelhante, nos anos 1970, numa visita de colegas e alunos noruegueses dos três departamentos de Geografia que então existiam naquele País: Oslo, Bergen e Trondheim. Do Minho ao Algarve, com incursões no Douro, na Beira Interior e, numa quase despedida, na Feira de Castro Verde. Expedição, estudo, confraternização e festa, a festa da Geografia

Recentemente fiz duas excursões que muito me agradaram e por isso as recomendo: com a Ana, com quem tenho partilhado muitas aventuras geográficas, geógrafa de créditos firmados fora dos espaços habituais da Geografia, descemos o Douro, de automóvel, devagar, por altura das vindimas, de Freixo até ao Porto. Sempre revisitando, desde a primeira grande “excursão” no Douro, em 1965, num estágio de Geografia na Vilariça, com António Ribeiro, às visitas a Quintas e a Adegas, onde conheci o Senhor Fernando Van Zeller que muito me ensinou sobre o Douro, a produção e o comércio de vinhos e, claro está, sobre a sua criação, o Mateus Rosé. O Douro está hoje muito diferente, nas vinhas, nas adegas (umas quantas são grandes peças de arquitetura), nas técnicas de cultivo, na vindima, na produção e no estágio do vinho. E a grande mudança do Turismo e tudo o que lhe está associado, começando pela qualidade da oferta hoteleira…

A outra excursão foi mais curta, de meio dia, com o meu amigo Horácio Capel, com que desenvolvemos, há dezenas de anos, a boa prática do “excursionismo”, seja em Barcelona ou em Múrcia/Lorca, seja em Lisboa ou no Alentejo e em Alvito… Desta vez, já não sei porque ligação, talvez em conversa de serão da véspera, fui mostrar-lhe Caneças e tudo o que encerra e a envolve: do maciço de rochas intrusivas, às nascentes das águas livres e respetivo aqueduto, das hortas e hotéis (uma história de vilegiaturas na sombra de Lisboa), à “água de Caneças”, das lavadeiras e saloios, à explosão urbanística da 2ª metade do século XX, das carroças e transportes coletivos ao Grupo Barraqueiro… Enfim, uma excursão que eu já não fazia desde o início dos anos 1970, com os meus alunos de Arquitetura. Concluímos na Capela de Nossa Senhora da Saúde no cimo de Montemor, admirando o panorama que o Tejo, a Arrábida e Sintra nos proporcionam e recordando aquele frade arrábido que em poucos versos nos deixou o melhor desenho do sítio da Área Metropolitana de Lisboa.

Jorge Gaspar
10/2016