João Ferrão

JOÃO FERRÃO
30/07/2016

Nascido em 1952. Licenciado em Geografia, Faculdade de Letras da UL. Doutorado pela UL em Geografia Humana. É atualmente investigador coordenador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e coordenador do Grupo de Investigação “Ambiente, Território e Sociedade” e do Conselho dos Observatórios do ICS-UL. Docente no departamento de Geografia da Faculdade de Letras de Lisboa (1976-95) e na Universidade Atlântica (1996-2000). Presidente da APDR - Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Regional (1987-1990). Secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades (2005-9). Membro do Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanidades da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (2010-13). Foi coordenador nacional de diversos projetos e redes de investigação internacionais, nomeadamente no âmbito de vários Programas - Quadro da Comissão Europeia e da European Science Foundation. Desenvolveu atividades de consultoria na área da geografia económica e social e do desenvolvimento regional e urbano. Foi consultor da OCDE (Programa de Desenvolvimento Rural, 1993). Coordenou diversos estudos de avaliação de políticas públicas, para o Governo português e para a Comissão Europeia, incluindo a avaliação ex-ante dos Quadros Comunitários de Apoio II e III (Portugal). Publicou, individualmente ou em colaboração, dezenas de artigos em revistas nacionais e estrangeiras e diversos livros sobre temas relacionados com geografia, ordenamento do território e políticas de desenvolvimento local e regional. É representante do Conselho dos Reitores das Universidades Portuguesas no CNADS (Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável). É pró-reitor da Universidade de Lisboa para a sociedade e comunidades locais.

 

1 - Comentário a um livro que o marcou ou cuja leitura recomende

O livro é, sem dúvida, Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico de Orlando Ribeiro. Li-o, de forma sistemática, quatro vezes.

No primeiro caso era ainda estudante do liceu (atual ensino secundário). Descobri o livro numa das minhas visitas das quartas-feiras à tarde, em que não tinha aulas, às livrarias do Chiado (Lisboa). O que mais me deslumbrou nesta leitura foi o facto de me ter proporcionado, pela primeira vez, uma leitura global do país (continente). Viria mais tarde a perceber que o conhecimento desta obra de Orlando Ribeiro deu outra amplitude, ainda que na altura disso não tenha tido consciência, ao gosto que sempre revelei por mapas e por assuntos relacionados com a geografia.

A segunda leitura foi feita quando era estudante da licenciatura de Geografia, no início dos anos 1970. Foi uma leitura crítica, feita a partir das correntes então em emergência (neopositivismo/nova geografia e marxismo/geografia radical) e também em função do contexto político que então se vivia no país (Estado Novo, na sua fase de abertura Marcelista) e na Universidade (lutas estudantis contra a guerra colonial e contra a designada reforma do ensino Veiga Simão). Constituiu uma leitura simétrica à que tinha feito poucos anos antes, centrada naquilo que não estava no livro (classes sociais, tensões políticas, etc.) ou nos aspetos que o livro parecia legitimar (uma certa ordem própria de um mundo rural secular, então em início de fragmentação face ao choque da modernização da sociedade e da economia e aos efeitos da emigração, que tinha aumentado exponencialmente nos anos 60).

A terceira leitura foi efetuada como jovem assistente do departamento de Geografia da Faculdade de Letras de Lisboa, no âmbito da preparação da cadeira “História e Teoria da Geografia”. O livro de Orlando Ribeiro foi então integrado no contexto da evolução das diferentes perspetivas em Geografia. À imaturidade quer do deslumbramento da descoberta de uma visão de conjunto do país por um jovem de 15 ou 16 anos quer da crítica radical à “velha ordem” a partir de uma perspetiva que se pretendia cosmopolita de um estudante universitário de 20 ou 21 anos, opunha-se, agora, uma aproximação científica que procurava entender o livro em questão, e de uma forma geral a obra de Orlando Ribeiro, no contexto da evolução do pensamento geográfico (como então se dizia) e, de forma mais ampla, da ciência. Vale a pena relembrar que, sob a influência da novas correntes que predominavam então na Geografia, o livro de Orlando Ribeiro deixara de ser lido pelos estudantes do curso.

A quarta leitura sistemática aconteceu no início dos anos 2000, quando comecei a desenvolver a teoria das três espacialidades de Portugal continental – Norte/Sul, associada ao Portugal tradicional rural; Litoral/Interior, reflexo da modernização do país ocorrida a partir dos anos 60 do século XX; e a metáfora do país como arquipélago, em que as “ilhas” correspondem aos territórios integrados nos processos de globalização e as “áreas submersas” aos territórios excluídos desses processos.

Ao longo destes anos, não foi o livro que se metamorfoseou: foi o modo como o interpretei, as circunstâncias em que o fiz e os objetivos que me levaram a lê-lo que se foram modificando. Mas, na verdade, esta é uma história irrelevante, porque meramente pessoal. Importante é salientar como Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico constitui, talvez, o único livro redigido por um geógrafo português que ultrapassou fronteiras disciplinares, tendo influenciado prestigiados autores das mais diversas áreas científicas, e ao mesmo tempo foi lido pelo grande público, um feito que não é de somenos importância num período em que a Universidade ainda funcionava como uma torre de marfim relativamente inacessível aos que lhe eram estranhos. Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico de Orlando Ribeiro é hoje um clássico. E como todos os livros clássicos, terá momentos de esquecimento e outros de (re)descoberta, mas o seu reconhecimento como um bem comum da ciência portuguesa garante-lhe uma merecida existência perene.

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia-a-dia, ser geógrafo?

Ser geógrafo significa muitas coisas: perspetivas próprias, competências específicas, valorização de determinados temas e metodologias, etc. No entanto, nem a comunidade dos geógrafos é homogénea ou estática, nem a representação que os outros têm de nós se baseia num conhecimento informado e equilibrado acerca da diversidade do que fazemos e dos modos como o fazemos. A importância de “ser geógrafo” no nosso quotidiano profissional depende, pois, de nós próprios mas também do modo como os outros nos olham. O facto de eu ter deixado o departamento de Geografia, onde lecionei cerca de 15 anos, para integrar o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, onde permaneço há quase três décadas, e de sempre ter valorizado o triângulo analítico território-sociedade-economia, o que me levou a desenvolver temas periféricos ou relativamente marginais à Geografia, justifica que seja considerado por muitos, recorrendo a uma frase que escutei por mero acaso numa conversa entre estudantes de Geografia numa fila do Multibanco, como “uma espécie de geógrafo”. Costumo dizer a brincar que para os geógrafos sou um sociólogo, para os sociólogos sou um economista e, finalmente, para os economistas sou um geógrafo. Esta natureza entre o híbrido e o equívoco não me incomoda. Na verdade, em momentos decisivos, na academia, como consultor ou como decisor político, com uma conotação positiva ou negativa, sempre ouvi o mesmo comentário: ah, ele é geógrafo…

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua actividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?

A questão anterior responde em parte a esta pergunta. Constrange-me, nessa interação, a sobrevalorização das capacidades e competências individuais em detrimento das potencialidades e virtualidades da Geografia como área científica. Nos países pequenos, os casos de sucesso no estrangeiro tendem a ser vistos mais como uma exceção que decorre de características individuais do que como o fruto de uma realidade coletiva. O mesmo sucede com a Geografia, uma comunidade olhada pelos outros ainda muito associada aos professores de geografia do ensino secundário e a especialistas em técnicas (SIG, por exemplo) ou temas (e.g. riscos, ordenamento do território) particulares e circunscritos. Os geógrafos participam pouco nos grandes debates teóricos, e por isso raramente são valorizados nesse âmbito. A Geografia não é considerada por ninguém como uma “ciência de encruzilhada”, ao contrário do que os próprios geógrafos afirmaram (para si próprios?) durante várias décadas. Também não existe por parte dos geógrafos uma vocação natural para liderar equipas – no âmbito do ordenamento do território, por exemplo – como ingenuamente muitos apregoaram de forma mais ou menos convicta.

Os geógrafos, enquanto comunidade profissional, têm pouco poder e um reconhecimento social reduzido. São estes motivos, associados a uma deficiente organização da comunidade dos geógrafos, a uma relativa debilidade teórica de muito dos seus membros e a uma participação insuficiente nas agendas científicas consideradas mais relevantes, que explicam que o reconhecimento do papel dos geógrafos seja globalmente baixo e tenda a concentrar-se num número restrito de pessoas que, por diversas razões, conseguiram ter presença, ganhar visibilidade e construir uma reputação fora da sua comunidade. No entanto, num mundo onde crescem os apelos à inter e à multidisciplinaridade, a versatilidade temática e as competências relacionais dos geógrafos ganham um novo fôlego. Se a isso adicionarmos o conhecimento que a Geografia acumulou nos últimos anos em temas que tendem a ser valorizados pelas agendas científicas e políticas (migrações, alterações climáticas, desenvolvimento urbano sustentável, etc.), creio que há razões para que o excecionalismo atribuído a alguns geógrafos venha a ser gradualmente substituído pelo reconhecimento da singularidade virtuosa da Geografia como área científica e comunidade profissional.  

4 - O que diria a um jovem à entrada da universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as perspectivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?

 Ao primeiro, o jovem estudante universitário, diria que apenas com paixão, conhecimento, competência, abertura e persistência poderemos moldar as nossas próprias circunstâncias. Complementarmente, fornecia-lhe informação sobre temas emergentes onde o contributo dos geógrafos é essencial, ainda que essa importância nem sempre seja reconhecida. Cabe, naturalmente, ao jovem estudante universitário retirar as devidas ilações.

Ao segundo, o geógrafo licenciado, recordaria que num mundo marcado pela crescente complexidade e imprevisibilidade, a versatilidade temática mas com alguns focos privilegiados, as competências relacionais no contacto com outras áreas disciplinares e com cidadãos, técnicos e decisores, um bom conhecimento das agendas emergentes e dos seus principais atores individuais e institucionais e, por último, a aposta na formação contínua constituem condições necessárias – mas infelizmente não suficientes – para aumentar as suas oportunidades.

Os geógrafos, como quaisquer outros cidadãos, têm de ter mundo. Essa é, aliás, uma característica que se espera que seja quase inata em alguém que escolhe o curso de Geografia por gosto. Uma comunidade fechada, constituída por membros autocentrados, não tem qualquer futuro. Jovens estudantes ou licenciados devem, por isso, integrar-se ativamente nas redes de conhecimento inovadoras e nas grandes controvérsias atuais. Se nada temos a dizer sobre elas, quem nos irá valorizar ou sequer escutar?

5 - Queríamos pedir-lhe que escolha um acontecimento recente, ou um tema actual, podendo ambos ser de âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha, e comente-o, tendo em conta em particular a sua perspectiva e análise como geógrafo.

É fácil identificar temas atuais presentes nas agendas internacionais (refugiados, alterações climáticas, cidades inteligentes, etc.) ou nacionais (reforma administrava, gestão integrada da orla costeira, valorização do interior, etc.) em relação aos quais se espera que os geógrafos tenham algo de relevante e inovador a dizer. Mas eu gostaria de sugerir um outro tema: o Futuro.

A minha geração aprendeu que “o futuro a Deus pertence”. Também fomos recorrentemente avisados de que as ciências sociais e as humanidades não devem ser normativas. No entanto, os “estudos sobre o futuro” (future studies) constituem hoje uma das áreas temáticas mais promissoras e úteis, num contexto de inevitável transição para sociedades e economias que terão de ser diferentes das que resultaram quer do capitalismo urbano-industrial iniciado em Inglaterra no século XVIII quer do capitalismo urbano-financeiro associado aos processos de globalização prevalecentes nas últimas quatro décadas.

Cenarização estratégica, prospetiva territorial, agendas transformadoras, estratégias de transição, caminhos de adaptação: estas são apenas algumas das palavras-chave que teremos de ter em conta, associadas a teorias e a metodologias específicas, para permitir participar nos atuais debates sobre futuros desejados, sustentáveis e possíveis. Depois do anunciado “fim da geografia”, defendido por diversos autores nos anos 90 do século passado, assistimos hoje ao regresso de velhas geografias (a dos nacionalismos, por exemplo) mas também à emergência de novas geografias insustentáveis, que ignoram os limites do planeta e desvalorizam a dignidade dos seres humanos.  Pela sua visão sistémica e de base territorial, os geógrafos estão bem apetrechados para se aventurarem neste novo domínio que lhes é pouco familiar - o futuro – encarando-o não como uma mera projeção de tendências mais ou menos recentes mas antes como um horizonte estratégico a que devemos aspirar e para o qual o conhecimento geográfico, os princípios de ética e de justiça espacial e, ainda, as políticas de base territorial poderão dar um contributo relevante.

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?

 Recomendaria qualquer lugar cuja particular complexidade exige um conhecimento sistémico e geográfico bem como intervenções integradas de base territorial, isto é, as áreas que poderemos designar por “territórios extremos”: os espaços periurbanos de povoamento difuso, os troços sobreocupados da orla costeira sob pressão do avanço do mar, as maiores cidades do país, os municípios onde a convergência dos processos de despovoamento e de desertificação podem anular limiares mínimos de vida humana e biofísica. Pela sua complexidade, estas áreas ilustram melhor que quaisquer outras as limitações das visões disciplinarmente especializadas e territorialmente cegas e, por oposição, o contributo distintivo que o conhecimento geográfico e as políticas territorializadas podem trazer para temas de recorte interdisciplinar e intervenções de natureza multissetorial.