Ilda Martinho Bicacro

Sertã, 5 de janeiro de 2018 

Ilda Loureiro Martinho Bicacro 

1 - Comente um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.

R. Anseio por uma forma de vida que me proporcione mais tempo para a leitura. Ler é viajar pelos sonhos. Tenho dificuldade em escolher um livro que mais me marcou. Tenho vários livros que me foram marcando. O primeiro livro que li, “A Bela Adormecida”, foi um prémio de leitora. Tinha apenas 7 anos e foi-me oferecido pela minha primeira professora, pela “menina Ângela” como era conhecida. Eça de Queirós foi o meu escritor preferido desde muito cedo. Ainda hoje releio os seus textos frequentemente. “Os Maias” é o livro que marcou a minha adolescência. As suas brilhantes descrições das variadas paisagens do romance são aquilo que neste escritor o aproximam do geógrafo; pelo retrato que faz do Portugal do século XIX, nas suas nuances, torna-o de leitura obrigatória. Dos contemporâneos, gosto particularmente de Lobo Antunes e dos seus romances que tão bem retratam o Portugal colonial e, particularmente, da guerra colonial.

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia a dia, ser geógrafo?

R. A Geografia é uma forma de estar, de viver, de ser. Não consigo imaginar-me a exercer outra profissão que não professora de Geografia. Escolhi ser professora de Geografia com apenas 13 anos, quando cheguei ao então Liceu D. Duarte, em Coimbra. Sempre senti que queria ser professora. Naquele momento, em Coimbra, nas aulas da professora Conceição, apaixonei-me por esta ciência que localiza, descreve e interpreta a paisagem, com um total respeito por todos os fenómenos naturais e humanos.

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?

R.  Sou professora de Geografia há muitos anos na Sertã. Os parceiros de projetos e de toda a minha atividade como professora foram, muitas vezes, meus alunos. Transporto uma imagem que me associa à Geografia e aos projetos de cidadania que tenho desenvolvido. O facto de ter a minha atividade profissional publicada nas redes sociais e noutras páginas da Escola reforça este vínculo à Geografia. 

4 - O que diria a um jovem à entrada de Universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as suas perspectivas na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspectivas, responsabilidades e oportunidades?

R. A Geografia como ciência social tem hoje e terá no futuro um lugar de grande relevância. Saber pensar o espaço, ordenar os territórios, gerir a ocupação do espaço pelas atividades económicas incluindo as atividades de lazer, será um campo onde as competências e as ferramentas da Geografia serão de extraordinária importância. O geógrafo é um dos poucos profissionais que mobiliza conhecimentos de diferentes áreas científicas desde a História à Matemática, desde as ciências físicas e experimentais passando pelas metodologias das ciências sociais e pelas novas ferramentas da Georreferenciação e da computação. O geógrafo cruza estes métodos e mobiliza estes conhecimentos, que aplica à paisagem e aos territórios. O carácter interdisciplinar do seu trabalho dota o geógrafo de grandes responsabilidades. As competências deste profissional tornam-no único. Em trabalho de equipa, esta visão interdisciplinar e integrada dos problemas dá ao geógrafo uma flexibilidade de pensamento e uma capacidade de equacionar os problemas de forma abrangente e escolher soluções múltiplas. Atendendo a que a paisagem apresenta problemas múltiplos, o enquadramento terá de ser multifatorial e as soluções abrangentes e isto é apanágio da visão geográfica.

No que se refere às oportunidades para um geógrafo, e partindo do pressuposto de que o ordenamento do território e a paisagem estão em constante evolução e cada dia e cada época traz os seus problemas, o trabalho do geógrafo terá sempre grande oportunidade. Os problemas do geógrafo são os problemas do mundo. Quando o mundo desenvolvido pensou ter os seus grandes problemas resolvidos no pós-guerra, quando se julgou que o bem-estar era um lugar seguro, eis que surgem os problemas da escassez de recursos, da dificuldade de os recursos do planeta não suportarem uma pegada ecológica que está a ser praticada. Agora com as agravantes das alterações climáticas, das migrações, da situação perante o nuclear, das desigualdades entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, do racismo e das xenofobias, só para falar em alguns dos mais preocupantes, as oportunidades de intervenção do geógrafo serão múltiplas.  Como será o mundo daqui a 20, 30 ou 50 anos? A Geografia terá aqui um papel importante a desempenhar na abordagem dos problemas, das metodologias a introduzir, das soluções a encontrar. 

5 - Queríamos pedir-lhe a escolha de um acontecimento recente, ou um tema atual, podendo ambos ser do âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha e comente-o, tendo em conta a sua perspetiva e análise como geógrafo.

R. O acontecimento internacional escolhido é o Brexit do Reino Unido da União Europeia. Sou uma europeísta convicta. Julgo que, apesar das dificuldades sentidas, a integração europeia foi um acontecimento que trouxe à Europa e a Portugal um desenvolvimento e um bem-estar como nunca tinha sido alcançado. Considero a União Europeia um espaço de liberdade, de solidariedade, de políticas de construção de um mundo melhor, apesar das políticas económicas nem sempre serem favoráveis a países de economias menos consolidadas, nomeadamente os países do Sul. Com as políticas comuns, em Portugal (e julgo que noutros países também), foram sentidas grandes melhorias em áreas como o ambiente, a saúde e a educação, considerando as áreas onde se fez maiores progressos. A saída do Reino Unido desta comunidade que vinha a ser construída desde 1957, que conta nesta data já com 28 países, pode significar o começo da desconstrução desta comunidade, colocando o desenvolvimento e a paz e progresso dos povos em causa.

Este Brexit significa também outros problemas europeus, nomeadamente o crescimento de partidos de extrema direita e com laivos de xenofobia, representando o que julgo ser o problema e não a solução para o esbatimento das desigualdades entre os povos e o agravamento dos fenómenos migratórios quer internos quer externos ao continente europeu. Estão a criar-se condições para surgir mais muros e menos pontes entre os povos.

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?

R. O território de Portugal é de uma riqueza extraordinária e muito está por investigar, havendo muito campo para produzir estudos científicos. Deste vasto território continental e insular, vou eleger as regiões da Bacia Hidrográfica do Tejo. Este rio internacional constitui-se como campo de estudos quer de Geografia Humana, quer de Geografia Física. As questões das alterações climáticas, da poluição ambiental e da gestão de recursos hídricos internacionais, ibéricos, deviam constituir preocupação dos geógrafos portugueses. Esta paisagem encontra-se numa vulnerabilidade que deve considerar-se preocupante.