Diogo Abreu

Diogo de Abreu

 

- Licenciado em Geografia e doutorado em Geografia (Geografia Humana) pela Universidade de Lisboa, é Professor Catedrático aposentado do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa (IGOT-UL) e investigador do Centro de Estudos Geográficos, de que foi seu Director Científico de 2002 a 2014. Leccionou como Professor convidado nas Universidades de Coimbra, Aveiro, Copenhague, Barcelona, Geneve e Maputo. As suas áreas de especialização são Geografia Humana, Métodos de Análise Regional, Geografia Económica, Estudos Urbanos, Desenvolvimento Regional e Local, Demografia, Transportes e Planeamento Regional, Impactes e Modelização. A sua investigação tem tido por objecto a evolução histórica recente e a prospectiva de diversos aspectos da geografia portuguesa e europeia, tendo-se ultimamente centrado na evolução da população e da economia das regiões no futuro próximo.

 

1 - Comente um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.

Um dos livros de geografia que mais me marcou foi o “Spatial Organization” de Ronald Abler, John Adams e Peter Gould, publicado no já distante ano de 1971. Tomei contacto com ele em Março de 1975, na primeira aula a que assisti no Curso de Geografia, na Universidade de Lisboa, pois era bibliografia fundamental da disciplina de Geografia Humana Geral, ministrada então pela primeira vez pelos Prof.s Jorge Gaspar e Bodo Freund, de uma forma muito rica, estimulante, e complementar, no primeiro curso de Geografia depois do 25 de Abril.

Então, este livro foi a descoberta! A grande descoberta de que este mundo em que vivemos tem uma lógica, um passado e um futuro conexos, interligados no presente em que vivemos e tomamos decisões…, de que este mundo em que vivemos pode ser entendido, e por via desse entendimento, pode ser melhorado. Este livro, foi uma leitura seminal que compreendo hoje, mudou a minha vida.

A leitura desta obra foi então complementada por outra referência bibliográfica da mesma disciplina, o “Excepcionalismo em Geografia” de Fred Schaefer (1953), que me conduziu para fora do frio determinismo das leis e das relações gerais, e me mostrou a riqueza do contingente e a importância dos factores locais, sempre presentes na explicação geográfica.

Duas leituras que muito me marcaram…

Duas leituras que, parte de um passado distante, repousam hoje na poeira da história.

Duas leituras que, em muito contribuíram para a pessoa que sou e para o geógrafo que procuro ser.

 

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia a dia, ser geógrafo?

Para mim, ser geógrafo é conhecer a terra, e ter uma visão integrada de todas as coisas que nela se passam. Quer no exercício das nossas actividades profissionais, quer no modo como vivemos, é esta característica que, na minha opinião, distingue, para melhor, os geógrafos.

E distingue para melhor, por que faz com que os que são geógrafos tenham uma compreensão mais completa e mais integrada do que se passa à sua volta, o que se traduz não só por um conhecimento mais eficiente, como por uma maior tolerância para com os outros e a sua maneira diversa de ser e de fazer.

 

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento? 

Claro que sim. O interesse pelo mundo e pelos seus problemas a todas as escalas, a busca comparativa do que se passa aqui e agora, com o que se está ou esteve a passar noutros lugares, noutros tempo e, noutros contextos, o ter em conta as diversas maneiras de ser e de fazer, as interconexões dos fenómenos e processos, mesmo os mais simples, a capacidade de reflectir e de aceitar, a tendência para evitar apreciações imediatas e radicais, a tolerância com e pelos outros, são características gerais dos que são verdadeiramente geógrafos, e que a mim, em maior ou menor parte, me são reconhecidas e valorizadas pelos meus parceiros e pelos meus colegas de trabalho. E não o são apenas no exercício da actividade profissional, mas também pelos meus amigos e pelas pessoas em geral com quem estabeleço relações de convívio e de actuação cívica, social e política.

 

4 - O que diria a um jovem à entrada de Universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as suas perspectivas na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspectivas, responsabilidades e oportunidades?

Eu dir-lhe-ia que teve sorte! Que teve sorte em ter vindo para geografia. A escolha que fez foi provavelmente baseada em razões variadas de natureza pessoal: as notas, o parecer um curso fácil, as características dos professores no secundário, etc.

Mas o que lhe diria é que teve sorte! Provavelmente vai achar insuficiente a formação dada pelo curso (e nós concordamos), provavelmente vai achar que o curso é trabalhoso e com pouca base teórica (e nós concordamos), e também vai provavelmente achar que o curso tem pouca componente prática ( e nós concordamos), provavelmente vai achar algumas partes da matéria incongruentes e desnecessárias ( e nós discordamos)… mas o que é facto é que teve sorte. Vai ter instrumentos que lhe “explicam” o que há, por que há e onde há, a muitas escalas e segundo muitas perspectivas, os diversos aspectos das realidades e processos que se passam no nosso planeta.

Dir-lhe-ia que teve sorte, pois vai ter uma vida profissional activa, centrada nos territórios e nas pessoas que os habitam, com muita presença do trabalho de campo, e vai ter uma visão mais abrangente e tolerante que a generalidade das pessoas.

Dir-lhe-ia ainda que tem sorte, pois vai ter a possibilidade e a responsabilidade de partilhar essa visão com muitos outros, a nível profissional, é claro, mas também a nível social, como cidadão informado.

Mas provavelmente não era isto o que se me pedia nesta pergunta, mas uma resposta mais centrada nas oportunidades de sucesso profissional e por essa via, mais centrada na sua participação na construção de um futuro comum. Creio que haverá muitas oportunidades de participar na construção de uma sociedade nova, melhor e mais justa, e que muitas delas poderão vir a constituir boas oportunidades de negócio. Desde a “melhor” localização das actividades, às decisões da vida comum dos indivíduos e das empresas, os geógrafos com uma razoável capacidade de previsão de acontecimentos naturais, sociais, económicos, financeiros, entre outros, poderão vir a ser conselheiros indispensáveis na previsão de cheias, secas, tornados, sismos, erupções, aumento ou diminuição de preços da terra, dos transportes, variação local/regional de potencias lucros e rendimentos, de alteração das oportunidades, etc.

Acredito que o mundo precisa de especialistas não especializados, nas empresas, nos organismos de estado, nas associações, nos meios de comunicação social, que contribuam para a formação de opiniões e de consensos. Os geógrafos têm mais capacidade para fazer isso do que a média dos profissionais, em que a grande especialização conduz à sectorização e à sectarização, com grande prejuízo de visões mais holísticas. E creio que assim será, ajudando a preparar os diversos agentes para a tomada de decisões, em matérias tão diferentes como o planeamento, o ordenamento, as decisões individuais,… 

 

5 - Queríamos pedir-lhe a escolha de um acontecimento recente, ou um tema atual, podendo ambos ser do âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha e comente-o, tendo em conta a sua perspetiva e análise como geógrafo.

Devido à grande comoção que afectou o País com a recente vaga de incêndios, com os elevados prejuízos materiais e com o mais de cem mortos que causou, pela grande relação que tem com os mais diversos aspectos geográficos do território: cadastro, abandono dos campos, envelhecimento, despovoamento e desertificação, clima e alterações climáticas, precipitação, escorrência, erosão e deposição, ordenamento da floresta, secura, desordenamento do povoamento e da localização das funções e actividades económicas, desenho da rede de transportes e comunicações, incapacidade de previsão da progressão dos incêndios, deficiente localização das unidades de intervenção, comunicações e comando, seria o tema dos fogos o acontecimento actual que eu deveria escolher.

Mas não… prefiro escolher o acontecimento que ainda não se verificou, mas de certeza se verificará a curto ou médio prazo: o de um grande sismo, que afectará todo o País com especial incidência, nas orlas terciárias sul e ocidental, com tsunamis em toda a costa, que serão especialmente destrutivos nos pequenos golfos e nas baías mais fechadas. De acordo com a intensidade do fenómeno esperam-se grandes destruições, muitas delas inevitáveis (devido à relação custo/benefício entre o valor da protecção e a frequência do fenómeno), queda ou dano em muitos edifícios, o número de mortos poderá ascender a muitas dezenas de milhar, os meios de socorro focarão quase todos inoperacionais…etc…. e tudo isto tem muito a ver com a Geografia. Uso do solo, procura de habitação e actividades junto ao litoral, ignorância das características geológicas e do comportamento sísmico de muitos dos terrenos ocupados, tipologia de construção desadequada às características dos locais, sistemas de socorro mal implantados em construções inapropriadas, sistemas de comunicações frágeis e não suficientemente redundantes, dependência de redes de energia de muitos equipamentos, meios autónomos deficientes, etc., etc.

E se os fogos de Pedrógão e de Outubro já lá vão, em relação à intervenção de profissionais com uma visão integrada de todos os aspectos em causa (entre eles, geógrafos) relativamente ao grande sismo que aí virá, ainda estamos a tempo. O que é preciso é que falem, o que é preciso é que sejam ouvidos…

 

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?

Não sabendo qual o público a que se destinaria esta saída de campo, considero que qualquer lugar serve para mostrar o que é a Geografia: é ver o que lá está (a paisagem) e o que não se vê (as razões por que lá está).

O que é fundamental é ver bem o que lá está, a terra, os rios, os bosques, os campos, as casas, as indústrias, as funções, as pessoas, as suas actividades, o que fazem e em que acreditam, … e depois por que é que é assim o relevo, a vegetação, as funções e as actividades, as manifestações sociais e culturais…

Saber por que é que o terreno é plano ou ondulado (às várias escalas), o tipo de vegetação natural e cultivada, as características do clima e dos solos, de que vivem as pessoas que lá habitam, por que existem mais velhos ou população mais jovem, que riscos correm, como são afectados pelas outras regiões, etc. etc. tudo isso é Geografia, e pode ser visto e demonstrado em qualquer parte.

O que é preciso é olhar, ver, compreender, e não esquecer o que são leis e regras gerais que se aplicam em qualquer lado e quais as especificidades locais/regionais que as afectam, e de cuja combinação resulta o que estamos a ver nesse território.