António Sampaio Ramos

António Sampaio Ramos

Licenciado em Geografia (Geografia Humana), Mestre em Geografia e Planeamento Regional e Local pela Universidade de Lisboa, é Diretor da Unidade de Politica Regional, na Agência para o Desenvolvimento e Coesão e investigador do Centro de Estudos Geográficos. Lecionou como Professor convidado nas Universidades de Lisboa e Algarve e trabalhou no Planeamento Regional e Local, Planeamento Territorial, Planeamento Estratégico. As suas áreas de especialização são Geografia Humana, Planeamento e Desenvolvimento Regional, Políticas Públicas, Politicas de Coesão e Turismo. 

1 - Comente um livro que o marcou ou cuja leitura recomende.
É difícil encontrar “o” livro que me tenha marcado para toda a vida. Tentando recuar nas minhas memórias, julgo que encontro duas referências bem marcadas. A cartilha maternal João de Deus… (era um livro enorme na sala de aula onde aprendi a juntar as letras). E “O Principezinho” de Antoine de Saint-Exupéry, que me alimentou o imaginário da viagem e das interrogações.

Na minha formação de Geógrafo, é um pouco mais difícil ainda, identificar apenas um livro, mas pelas vezes que o reli, sempre com o mesmo prazer, escolho “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico” do prof. Orlando Ribeiro, que me estimulou a olhar para o nosso território e para a matriz que o moldou.
Se me é permitido uma recomendação, num momento em que o país reflete sobre a Estratégia que ambiciona para 2030, sugeria revisitar o conjunto de volumes “Portugal: próximos 20 anos”, de conjunto inspirador de Geógrafos que admiro (Chiris Butler, Diogo de Abreu, João Ferrão e Jorge Gaspar). 

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia a dia, ser geógrafo?
Para mim, ser geógrafo é conhecer a terra, e ter uma visão agregada das interações (causa/efeito) que nela ocorrem. Esta abordagem torna-me um observador necessariamente mais atento, e impõe encontrar racional para as perguntas que me assaltam, desta forma posso exercer uma cidadania mais ativa e uma participação informada. 
A Geografia possibilita-me ligar o conhecimento com a aplicação prática, permite-me sentir parte ativa do mundo que me rodeia.

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?  
Nas diferentes áreas de atividade em que me envolvi, do ordenamento do território ao planeamento estratégico e territorial, da docência à consultoria especializada, a visão agregada e integradora, que a Geografia me permite, dá-me uma leitura privilegiada a diferentes escalas e contextos e permite criar pontes e uma relação fácil em contexto multidisciplinar. Julgo que que neste contexto multidisciplinar, é particularmente relevante, a dimensão territorial que conseguimos atribuir às abordagens mais ou menos conceptuais de outras áreas de intervenção.

4 - O que diria a um jovem à entrada de Universidade a propósito da formação universitária em Geografia, sobre as suas perspetivas na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspetivas, responsabilidades e oportunidades?
Dir-lhe-ia que chegou a um curso enriquecedor, que nos dá um número alargado de ferramentas para decodificar a realidade. Que está num domínio que lhe permite fazer acontecer… e que pode ajudar a mudar para melhor a realidade onde se insere.
Num mundo em que o longe está cada vez mais próximo de nós do que aquilo que temos perto está num curso que permite olhar o que nos rodeia e ajustar as coordenadas e as escalas, a cada instante.
Aos geógrafos enquanto observadores privilegiados, proponho mundo e prática com o território, e nunca limitem a sua capacidade de colocar questões.

5 - Queríamos pedir-lhe a escolha de um acontecimento recente, ou um tema atual, podendo ambos ser do âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha e comente-o, tendo em conta a sua perspetiva e análise como geógrafo.
Vai ser provavelmente um dos temas dos próximos anos. A sustentabilidade demográfica. Como a grande maioria dos temas, não é novo, mas coloca aos geógrafos desafios relevantes. Ao contrário de muitas das intervenções implementadas no território nacional, que são influenciadas ou inspiradas por medidas e boas práticas testadas, afinadas ou imaginadas noutras geografias. Desta vez, nós somos obrigados a desenhar políticas de referência para inspirar a europa. Vamos envelhecer primeiro e mais depressa, vamos ter concelhos com mais de 60% da população com mais de 65 anos. Assimetrias regionais, alterações no mercado de trabalho, desafios às cidades, políticas de natalidade, fecundidade e migração, desafios territoriais de planeamento de um território que encolhe demograficamente,etc., são desafios a que temos de responde de forma ativa.   

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?
Sem dúvida, uma vista à Ria Formosa, um laboratório vivo onde podemos encontrar motivos de estudo relevantes para a maioria dos domínios da geografia humana e física. Um dos últimos paraísos da Europa.