Albano Figueiredo

Licenciado em Geografia, Mestre em Geografia Física e Estudos Ambientais pela Universidade de Coimbra e Doutoramento em Geografia Física, desempenha funções de professor Auxiliar no Departamento de Geografia e Turismo da Faculdade de Letras da mesma universidade. Enquanto investigador do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Coimbra desenvolve estudos científicos no âmbito da Biogeografia.

1 - Comentário a um livro que o marcou ou cuja leitura recomende

Na literatura de língua portuguesa, os livros que mais me marcaram são aqueles que apresentam uma boa descrição do território(s) geográfico(s) em que se desenvolve a ação. “Gente feliz com lágrimas”, de João de Melo, foi um dos livros que mais gostei de ler. Talvez por apresentar uma perspetiva que, de alguma forma, transparece uma análise geográfica de um território e de uma sociedade num determinado momento histórico. Apesar de ancorado nos Açores, este romance apresenta um retrato que facilmente se aplica a todo um país, de matriz essencialmente rural, num período de grandes transformações sócio-demográficas, muito associadas a processos migratórios que se estabelecem na tentativa de “fuga” a uma realidade marcada pela pobreza numa sociedade agrícola e patriarcal.

2 - Que significado e que relevância tem, no que fez e no que faz, assim como no dia a dia, ser geógrafo?

Ser geógrafo é um desafio, tanto pessoal como profissional. Um desafio que nasce da perspetiva integradora que marca a identidade de um geógrafo, e que se estabelece ao nível da necessária articulação de domínios temáticos distintos, que se cruzam aquando da análise de processos ou fenómenos, ou mesmo da procura de soluções para a resolução de problemas num território. Perspetiva esta que se revela como sendo uma capacidade fundamental para integrar e relacionar processos que se desenvolvem a diferentes escalas. Ainda que deva ser considerada uma mais-valia, esta perspetiva encerra a necessidade de nos movermos numa estrutura conceptual e metodológica complexa, determinada por esta posição de charneira que tantas vezes se associa à Geografia.

3 - Na interação que estabelece com parceiros no exercício da sua atividade, é reconhecida a sua formação em Geografia? De que forma e como se expressa esse reconhecimento?

Em Portugal, raramente senti que à formação em Geografia se associava a diversidade de competências que normalmente um geógrafo detém. Há ainda na sociedade uma imagem desatualizada da Geografia, que por vezes subsiste mesmo no meio académico. Continua a prevalecer uma imagem redutora associada aos conceitos “localização” e “descrição”, e raramente reconhecida a vertente tecnológica e experimental. Mas esta é uma imagem de partida, um estereótipo que perde suporte quando apresentamos os domínios temáticos em que trabalhamos e as ferramentas que utilizamos. E esta alteração de perspetiva tem-se traduzido na crescente integração do geógrafo em equipas multidisciplinares, e a desempenhar tarefas que vão além da compilação de dados geográficos e retrato territorial de base.

4 - O que diria a um jovem à entrada de Universidade a propósito da formação universitária e Geografia, sobre as perspectivas para um geógrafo na sociedade do futuro? E a um geógrafo a propósito das perspectivas, responsabilidades e oportunidades?

O geógrafo tem um papel muito importante na sociedade do futuro, que ainda não foi reconhecido na sociedade atual. Muitos dos erros que podemos identificar ao nível de decisões, nomeadamente ao nível do planeamento e ordenamento do território, devem-se ao domínio de uma visão muito sectorial ao nível das soluções que foram eleitas para a resolução de problemas. Mas o reconhecimento desse papel pressupõe necessariamente uma formação base sólida, e o trabalho conjunto de atuais e futuros geógrafos no sentido de mostrar à sociedade as nossas competências através de resultados efetivos. Esta é uma responsabilidade de todos, e contribuirá decisivamente para a criação de oportunidades futuras. Mas não devemos deixar escapar as oportunidades atuais, e reforçar o nosso comprometimento com os debates da atualidade do país, através de uma participação mais ativa, que deve crescer de forma sólida, através da reflexão e debate, já durante a formação universitária.

5 - Queríamos pedir-lhe a escolha de um acontecimento recente, ou um tema atual, podendo ambos ser do âmbito nacional ou internacional. Apresente-nos esse acontecimento ou tema, explique as razões da sua escolha e comente-o tendo em conta em particular a sua perspetiva e análise como geógrafo.

Apesar de não ser um tema muito mediático, pois apenas tem destaque pontual, a erosão costeira apresenta-se hoje como um problema de escala mundial. A comunidade científica internacional que se dedica ao estudo de regiões costeiras identifica-o já como um problema de difícil solução, que foi agudizado pela vigência de uma perspetiva de intervenção nestas áreas baseada na instalação de estruturas artificiais de proteção costeira (ex.: molhes, esporões, paredões, quebra-mares) que promoveram uma alteração profunda da dinâmica de sedimentos, reforçando o desequilíbrio originado por vários outros fatores associados à interferência humana (retenção de sedimentos nas barragens, extração ilegal de areias nas praias e sistemas dunares, dragagens). Se o risco de erosão costeira se assume já como um problema sério em vários locais do mundo, caso se verifique uma subida do nível do mar próxima ao previsto em função de projeções climáticas para um horizonte temporal próximo, além de uma alteração profunda da geografia costeira, haverá certamente a necessidade de equacionar soluções que ajudem a reduzir o impacte muito negativo do ponto de vista económico, tendo em conta a concentração de pessoas e atividades nestas áreas. Várias ilhas baixas do Pacífico estão já a ser evacuadas devido a este problema. Ainda que inicialmente se associasse esta situação exclusivamente ao processo de subida do nível do mar, sabe-se hoje que a erosão está muito associada a uma redução do volume de areia nas praias provocada pela extração ilegal, que suporta um dos negócios  mais lucrativos quando se considera a extração de recursos naturais.

Mesmo conhecendo as implicações, ainda não se discutem estratégias articuladas a implementar à escala supra-nacional, renunciando a uma perspetiva de ação local que se tem revelado pouco adequada, como é o caso das obras de engenharia, ou insuficiente, como é o caso da alimentação artificial de praias. E a procura deste recurso continua a aumentar, num mundo em que o aumento das áreas urbanas continua a ser alimentado pela extração crescente de areia com origem em áreas costeiras. Neste contexto, faz sentido criar praias artificiais na Ilha da Madeira, que têm que ser alimentadas regularmente devido às condições do tipo de costa e dinâmica de sedimentos local, enquanto se assiste ao desaparecimento de praias importantes na costa marroquina? A origem do problema não está só de um lado.

6 - Que lugar recomendaria para saída de campo em Portugal? Porquê?

Por diversas razões, recomendaria a Ilha da Madeira. Não só porque é um território que conheço razoavelmente bem, mas porque considero que permite o contacto com aspetos ímpares do ponto de vista geográfico. Além de ser uma montanha de origem vulcânica de relevo muito acidentado, com uma dinâmica de vertentes muito ativa, que a torna num campo de trabalho muito interessante ao nível dos riscos naturais, apresenta uma diversidade de ambientes muito significativa para uma ilha desta dimensão (aprox. 740 km2). Desde o ambiente mais seco e de baixa altitude da Ponta de S. Lourenço, onde podemos encontrar dunas fósseis cuja origem está relacionada com níveis médios do mar inferiores ao atual, associados a períodos mais frios; passando pela floresta de Laurissilva da face norte da ilha, emersa em nevoeiros durante um número significativo de dias ao longo do ano, e que inclui vários paleoendemismos, cuja extinção no continente Europeu se deveu à degradação climática com início no final do Miocénico, e por isso associados a um período mais quente e húmido que o atual;  até aos ambientes de montanha, como o Paul da Serra, um inesperado planalto, ou os picos mais altos, que ascendem quase aos 1900 metros de altitude (Pico Ruivo: 1862 m), vários são os aspetos de interesse neste território insular. Além dos aspetos físicos, também as dinâmicas sócio-económicas têm aqui algumas particularidades, como a importância do turismo ou as dinâmicas ligadas à emigração, as quais promoveram alterações importantes no passado recente na paisagem da ilha. É realmente um campo de trabalho de excecional interesse para um geógrafo.